português (portugais)

Mappemonde mettant en évidence le Japon et la Russie.

O Requiem do povo ainu

Tra­du­zido do fran­cês

À se­me­lhança das na­ções ame­rín­di­as, o que hoje resta do povo ai­nu, ou­trora tão no­tá­vel e tão ar­den­te­mente apai­xo­nado pela li­ber­da­de, vê-se mi­se­ra­vel­mente con­fi­nado em al­gu­mas al­deias abo­rí­ge­nes. Ex­tin­gue-se em si­lên­cio, aban­do­nado a um des­tino que de modo al­gum me­re­ce. An­tes da he­ge­mo­nia ja­po­ne­sa, o seu imenso ter­ri­tó­rio des­do­bra­va-se, con­tu­do, à ma­neira de uma ár­vore ma­jes­to­sa. A grande ilha de Hok­kaido — en­tão de­no­mi­nada Ezo — cons­ti­tuía-lhe o tronco ma­ci­ço, de onde se lan­ça­vam dois ra­mos dis­tin­tos. Um, in­cli­nado para no­ro­es­te, não era se­não a ilha de Sa­ca­lina — Ki­ta-Ezo ou «Ezo do Nor­te»; o ou­tro, para nor­des­te, de­se­nhava o ro­sá­rio das Cu­ri­las — Oku-Ezo ou «Ezo dos con­fins» — des­fi­ado até à ponta do Kamt­chat­ka.

Nos confins do mundo conhecido

Du­rante cerca de um mi­lé­nio, o Ja­pão não teve no­ção sé­ria al­guma des­tas ilhas es­con­di­das sob as bru­mas mi­to­ló­gi­cas. O pouco que de­las sa­bia pro­vi­nha-lhe de sin­gu­la­res mer­ca­do­rias que re­ce­bia por troca — óleo de tu­ba­rão, pe­nas de águia, lí­quen me­di­ci­nal, es­tra­nhos tra­jes co­si­dos de casca no ve­rão, de pe­les de foca no in­verno —, ou de ru­mo­res lon­gín­quos, pouco se­gu­ros, que des­cre­viam os che­fes in­su­la­res como gi­gan­tes «muito mal­va­dos e da­dos à ma­gia», ca­pa­zes, a seu bel-pra­zer, de «pro­du­zir a chuva e fa­zer so­prar as tem­pes­ta­des»1Matsumae-shi (Des­cri­ção de Mat­su­mae) de Mat­su­mae Hi­ro­na­ga, 1781, iné­dito em fran­cês.. Só em 1604 foi in­ves­tido um dái­mio em Mat­su­mae; mas este li­mi­ta­va-se, de certo mo­do, a mon­tar guar­da.

«Ne­gli­gen­ciá­veis e ne­gli­gen­ci­a­das», es­tas ilhas fo­ram igual­mente a única parte do Pa­cí­fico que es­ca­pou à ac­ti­vi­dade in­fa­ti­gá­vel do ca­pi­tão Co­ok. E, a esse tí­tu­lo, pro­vo­ca­ram a cu­ri­o­si­dade de La Pé­rou­se, que, desde a sua par­tida de Fran­ça, ar­dia de im­pa­ci­ên­cia por ser o pri­meiro a lá abor­dar. Em 1787, as fra­ga­tas sob o seu co­mando fun­de­a­ram di­ante de Sa­ca­li­na, e os Fran­ce­ses, de­sem­bar­ca­dos em ter­ra, en­tra­ram em con­tacto com «uma raça de ho­mens di­fe­rente da dos Ja­po­ne­ses, dos Chi­ne­ses, dos Kamt­cha­da­les e dos Tár­ta­ros, de quem não es­tão se­pa­ra­dos se­não por um ca­nal». Sub­ju­gado pe­las suas ma­nei­ras do­ces e es­pon­tâ­neas tanto quanto pela sua rara in­te­li­gên­cia, La Pé­rouse não he­si­tou em com­pa­rá-los aos Eu­ro­peus mais ins­truí­dos. Re­lata com ma­ra­vi­lha­mento como um in­su­lar, com­pre­en­dendo os seus pe­di­dos, agar­rou num lá­pis para tra­çar so­bre o pa­pel um mapa ri­go­ro­sa­mente exacto e in­di­car «por tra­ços, o nú­mero de jor­na­das de pi­roga».

Veio a res­tau­ra­ção de Mei­ji, que ha­ve­ria de trans­tor­nar os equi­lí­brios se­cu­la­res do Ezo, tal­vez mais ainda do que os do Ja­pão. Ao longo de uma po­lí­tica bru­tal de des­bra­va­mento e de co­lo­ni­za­ção, agra­vada por de­sa­pos­sa­men­tos au­to­ri­tá­ri­os, a ad­mi­nis­tra­ção cen­tral su­jei­tou os Ai­nus a uma tu­tela de ma­drasta que apa­gava até o nome da sua ter­ra. Nesta mar­gi­na­li­za­ção for­ça­da, a sua rica li­te­ra­tura oral, trans­mi­tida de ge­ra­ção em ge­ra­ção no san­tuá­rio da sua me­mó­ria, de­fi­nhou até não ser mais do que re­cor­da­ções de avós. Es­que­ci­dos os can­tos con­sa­gra­dos aos an­te­pas­sa­dos (ainu-yukar)2Da prá­tica des­tes re­la­tos ver­si­fi­ca­dos (yukar), ape­nas ra­ros tes­te­mu­nhos che­ga­ram até nós: «Se acre­di­tar­mos num de­se­nho ja­po­nês do sé­culo XVII, o re­ci­ta­dor (yukar-kur) pa­rece ori­gi­nal­mente ter sal­mo­di­ado o seu texto dei­tado junto à la­rei­ra, mar­cando o com­passo ba­ten­do-se no ven­tre. Os úl­ti­mos tes­te­mu­nhos […] mos­tram o re­ci­ta­dor, na re­a­li­dade o mais das ve­zes uma mu­lher, sen­tada de per­nas cru­za­das à beira da la­reira e mar­cando o com­passo ba­tendo na borda do lar com uma va­ri­nha. Os ou­vin­tes fa­zem o mesmo sol­tando re­gu­lar­mente gri­tos de acom­pa­nha­mento»., as epo­peias di­vi­nas (kamuy-yukar) e os con­tos (uwepeker) onde se ani­mava uma na­tu­reza va­ga­mente per­so­ni­fi­ca­da: o Mar que ali­men­ta, a Flo­resta que abri­ga, o Ur­si­nho cri­ado na al­deia com um cui­dado in­fi­ni­to… Tal como de­plora Ku­bo­dera It­suhi­ko: «Afora al­guns an­ciãos, os Ai­nus já não em­pre­gam a sua lín­gua. Fa­lam ja­po­nês».

O Fervor sacrificial de Chiri Yukie

Foi para con­ju­rar este des­tino que sur­giu Chiri Yu­kie. Di­la­ce­rada en­tre a sua edu­ca­ção ja­po­nesa mo­derna e a he­rança das suas avós, re­ci­ta­do­ras ilus­tres, sa­ben­do-se con­de­nada pela do­en­ça, esta Ainu em­pre­gou a sua bre­vís­sima exis­tên­cia a trans­cre­ver em la­tim e a tra­du­zir em ja­po­nês treze epo­peias di­vi­nas, tor­nan­do-se a «jo­vem que cap­tu­rava os deu­ses» em «pre­sente aos seus»3Para re­to­mar a bela fór­mula do in­ves­ti­ga­dor Mar­vin Nau­en­dorff.. O seu co­ra­ção dei­xou de ba­ter aos de­za­nove anos de ida­de, ape­nas al­gu­mas ho­ras após a con­clu­são do seu ma­nus­crito Ainu shin’yô-shû (Co­lec­tâ­nea de can­tos ai­nus)4For­mas re­jei­ta­das:
Chants des di­eux aï­nous (Can­tos dos deu­ses ai­nus).
Mytho­lo­gie ainu (Mi­to­lo­gia ainu).
Ainu shin’yo­oshuu.
Ainu shinyoushu.
. A sua tia, Ime­kanu5For­mas re­jei­ta­das:
Imekano.
Kan­nari Mat­su.
, e o seu ir­mão, Chiri Mashiho, re­to­ma­ram em se­guida o fa­cho, pu­bli­cando im­po­nen­tes sequên­ci­as. No seu pre­fá­cio com acen­tos de tes­ta­men­to, Chiri Yu­kie en­toa o treno «da­que­les con­de­na­dos a de­sa­pa­re­cer» (ho­ro­biyuku mono):

«Para onde fo­ram to­das aque­las pes­soas que vi­viam em paz nas mon­ta­nhas e nas pla­ní­ci­es? A na­tu­reza que exis­tia desde os tem­pos an­ti­gos de­sa­pa­rece pro­gres­si­va­men­te. Os pou­cos de en­tre nós que ainda res­tam abrem gran­des olhos es­pan­ta­dos di­ante da evo­lu­ção do mun­do. […] Oh, si­lhu­eta las­ti­mosa em vias de pe­re­cer, obri­gada a agar­rar-se à cle­mên­cia alheia!»

Tsushi­ma, Yûko (dir.), Tom­bent, tom­bent les gout­tes d’ar­gent : Chants du peu­ple aï­nou (Ca­em, caem as go­tas de pra­ta: Can­tos do povo ainu), trad. do ja­po­nês por Flore Cou­mau, Ro­dolphe Di­ot, Cathe­rine Van­sin­te­jan, Pau­line Vey e Ro­se-Ma­rie Ma­ki­no-Fayol­le, Pa­ris: Gal­li­mard, col. «L’Aube des peu­ples», 1996.

A Resistência pelo espírito de Nukishio Kizô

Em per­feito con­tra­ponto a este elo­gio fú­ne­bre, Nu­kishio Kizô6For­mas re­jei­ta­das:
Nu­kishio Hô­chin.
Nu­kishio Hô­ma­ku.
re­cusa a pro­fe­cia da ex­tin­ção. Atra­vés do seu ma­ni­festo de 1934, As­si­mi­la­ção e ves­tí­gios dos Ai­nus (Ainu no dôka to senshô), ele re­a­nima o or­gu­lho do nome ainu que, na lín­gua dos seus, sig­ni­fica «ser hu­ma­no». Fus­ti­gando o «ho­mem or­di­ná­rio» (ningen) ce­gado por in­te­res­ses pes­so­ais, apela ao ad­vento do «ho­mem vir­tu­o­so» (hito, 人). Neste ide­o­gra­ma, cu­jos dois tra­ços se am­pa­ram um ao ou­tro para se im­pe­di­rem de cair, ele lê a ale­go­ria mesma da nossa «ne­ces­si­dade de um apoio mú­tuo vi­go­roso e cons­tante para se man­ter de pé». Tal como Con­fú­cio dis­tin­guindo o «ho­mem hon­ra­do» (junzi) do «ho­mem de pou­co», é na be­ne­vo­lên­cia ac­ti­va, eri­gida em vir­tu­de, que o in­te­lec­tual en­trevê a es­pe­rança de uma so­ci­e­dade en­fim apa­zi­guada onde «os ho­mens vir­tu­o­sos res­pei­tam a po­tên­cia da na­tu­reza».

Em busca das almas esvoaçadas

Tal como de­sa­pa­re­ceu o ve­lho Ezo, com es­tes Ai­nus — ir­mãos do fra­gor das tor­ren­tes e do la­mento do vento nas fo­lha­gens — ame­a­çam tam­bém apa­gar-se a «te­o­fa­gia sil­ves­tre e bár­bara»; a «co­mu­nhão mí­tica com o in­vi­sí­vel»; as char­ne­cas sel­va­gens po­vo­a­das de me­mó­rias glo­ri­o­sas e de deu­ses kamuy; en­fim, as «pri­mi­ti­vas in­tui­ções tendo por cen­tro a ideia do ramat — o es­pí­ri­to, a in­ti­mi­dade se­cre­ta, o co­ra­ção do ho­mem e das coi­sas»7Tão jus­ta­mente des­cri­tas por Fosco Ma­rai­ni.. Per­de­mos a nossa pró­pria parte de ani­mismo num mundo na­tu­ral que não cessa de en­co­lher. É ur­gente ten­tar re­cu­pe­rá-la, como aque­les xa­mãs de ou­trora que se lan­ça­vam numa de­manda para al­can­çar as al­mas es­vo­a­ça­das dos mo­ri­bun­dos an­tes que se dis­si­pas­sem para sem­pre.

Mappemonde mettant en évidence l’Inde et le Pakistan.

O Ouro dos siques: Fausto e universalidade do Granth

Tra­du­zido do fran­cês

Um dos tan­ques sa­gra­dos da Ín­dia é o «lago da imor­ta­li­da­de» (Am­rita Sa­ra), em Am­rit­sar1For­mas re­jei­ta­das:
«Mare d’im­mor­ta­li­té» («­Charco da imor­ta­li­da­de»).
«É­tang de l’im­mor­ta­li­té» («­Tan­que da imor­ta­li­da­de»).
«Bas­sin de l’im­mor­ta­li­té» («­Ba­cia da imor­ta­li­da­de»).
«Bas­sin du breu­vage de l’im­mor­ta­li­té» («­Ba­cia da be­bida da imor­ta­li­da­de»).
«Bas­sin du nec­tar» («­Ba­cia do néc­tar»).
«Lac du nec­tar» («­Lago do néc­tar»).
«Ex­cel­lente am­broi­sie» («Ex­ce­lente am­bró­si­a»).
Am­rita Sa­ras.
Umrita-sara.
Umritsar.
Umritsir.
Umretsir.
Amretsir.
Amritsir.
Umbritsir.
Amritsur.
Umritsur.
Umritzer.
Umbritzir.
Amretseyr.
, onde bate o co­ra­ção da fé si­que. Quem quer que ali se di­rija é ar­ras­tado por uma mul­ti­dão hu­mana com fra­grân­cias de flo­res e de in­censo e chega com ela di­ante de uma ma­ra­vi­lha: um tem­plo de ouro en­tro­ni­za­do, como uma joia pre­ci­o­sa, no meio das águas. Es­pe­ra­mos fi­car en­can­ta­dos e fi­ca­mos des­lum­bra­dos. Uma turba in­des­cri­tí­vel de vi­a­jan­tes, pe­re­gri­nos e cu­ri­o­sos de «to­das as ra­ças da Ín­dia» aco­to­ve­la-se e in­ter­pe­la-se «em di­a­le­tos so­no­ros que fe­rem o ou­vido como um ruído de fan­far­ras», en­quanto cri­an­ças, a cor­rer, con­tor­nam os cais de már­mo­re. Este tem­plo aco­lhe sem dis­tin­ção de sexo nem de re­li­gião. No in­te­ri­or, ne­nhum ído­lo. O único ob­jeto de ve­ne­ra­ção, pou­sado na grande sala sob um ve­lá­rio de bro­ca­do, é o Granth, com­pi­lado ori­gi­nal­mente por Ar­jan, o quinto gu­ru, e o seu fiel es­criba Bhai Gur­das. «Dia e noite sem des­can­so, como para re­a­li­zar uma es­pé­cie de ado­ra­ção per­pé­tua, granthi [o­fi­ci­an­tes] can­tam, sob es­tas abó­ba­das ve­ne­ra­das, frag­men­tos do li­vro santo acom­pa­nhan­do-se de ins­tru­men­tos de cor­da.»

Meio milénio de poesia dispersa

Os si­ques de­sig­nam o seu li­vro sa­grado como o Adi Granth (o Pri­meiro Li­vro) ou o Sri Gou­rou Granth Sahib (o Ve­ne­rado Mes­tre Li­vro)2For­mas re­jei­ta­das:
Sri Guru Granth Saheb.
Siri Guru Granth Sahid.
Shri Guru Grant Sahib.
Śrī Guru Grantha Sāhib.
, mas mais fre­quen­te­mente ainda sob o vago nome de Granth (o Livro)3For­mas re­jei­ta­das:
Grantha.
Grant.
Grântah.
Grandth.
, do mesmo modo que os cris­tãos cha­mam ao seu a Bíblia (os Livros). Ora, o Granth é uma obra ab­so­lu­ta­mente única em re­la­ção aos câ­no­nes das ou­tras re­li­giões: uma fas­ci­nante an­to­lo­gia poé­tica que não con­tém ape­nas os hi­nos e cân­ti­cos dos seus gu­rus, mas os de mís­ti­cos an­te­ri­o­res, tal como o xe­que Fa­ri­dud­din, dito Baba Fa­rid, nas­cido por volta de 1175. Os gu­rus, por sua vez, tendo vi­vido en­tre 1469 e 1708, eis meio mi­lé­nio de po­e­sia in­di­ana dis­per­sa, cuja re­ci­ta­ção inin­ter­rupta (akhand path) exige dois dias e duas noi­tes aos granthi que se re­ve­zam sem tré­guas. É por isso que, no seu leito de mor­te, o dé­cimo e úl­timo gu­ru, Go­bind Singh, em vez de no­mear um su­ces­sor, de­cre­tou que esta com­pi­la­ção se­ria do­ra­vante o eterno di­re­tor de al­mas: «Após a mi­nha mor­te, de­ve­reis em to­das as cir­cuns­tân­cias di­ri­gir-vos ao Granth Sahib; é ele que será o vosso gu­ru; tudo o que lhe per­gun­tar­des, ele vo-lo mos­trará».

A Cozinha comum da fraternidade

A fi­lo­so­fia do Granth é uma edu­ca­ção de amor e de be­ne­vo­lên­cia, lan­çada en­tre o mundo hindu e o mundo mu­çul­ma­no. Do pri­mei­ro, adota a de­vo­ção (bhakti) sem os ído­los nem o jugo das cas­tas. Do se­gundo — o mo­no­teísmo e o élan sufi sem a cha­ria. Ser­vin­do-se da alta po­e­sia, dá a ideia do que pode ser uma vida digna de ser vi­vi­da, uma ver­da­deira vi­da; o que a eleva ao es­ta­tuto de re­li­gião uni­ver­sal. A sua ora­ção ter­mina in­va­ri­a­vel­mente com es­tes vo­tos para a hu­ma­ni­dade in­tei­ra: «Que a Tua von­ta­de, ó Se­nhor, traga a paz e a fe­li­ci­dade a cada um e a to­dos, no mundo in­teiro». Bhai Gur­das, já men­ci­o­na­do, ex­pli­ca:

«Ele [o si­que] vive ver­da­dei­ra­mente uma vida de sa­cri­fí­cio, a vida de um es­cravo do Se­nhor que ama. […] No seu amor, es­quece fome e so­no. As suas mãos es­tão in­ces­san­te­mente ocu­pa­das a aju­dar os ne­ces­si­ta­dos e a re­con­for­tar os aba­ti­dos. […] Mag­nâ­ni­mo, to­le­rante e se­re­no, vive para ser­vir a hu­ma­ni­da­de.»

La­da­me, Paul-A­le­xis, « Les Sikhs » (Os Si­ques), Cahi­ers d’é­tu­des catha­res, nº 147, ou­tono de 1995, p. 3-38.

Os gu­rus pre­ga­ram uma igual­dade ab­so­lu­ta, que en­con­tra a sua ex­pres­são mais con­creta no langar. Esta pa­la­vra de­signa o re­fei­tó­rio ad­junto aos tem­plos e a re­fei­ção co­mu­ni­tá­ria que ali é ser­vi­da, aberta a to­dos. «O langar, lan­çado pelo pri­meiro gu­ru, […] Na­nak, era par­ti­cu­lar­mente ori­gi­nal e ra­di­cal na Ín­dia on­de, du­rante sé­cu­los, […] ha­via, e ainda há, proi­bi­ções re­la­ti­vas às pes­soas com as quais se come». Diz-se que o pró­prio im­pe­ra­dor Ak­bar, o mais to­le­rante dos so­be­ra­nos mo­góis, se su­jei­tou a esta hos­pi­ta­li­dade in­con­di­ci­o­nal, sen­tan­do-se nas fi­lei­ras dos hu­mil­des para co­mer com eles4Se­gundo uma tra­di­ção pouco se­gu­ra, este epi­só­dio pro­du­ziu uma tal im­pres­são no mo­narca que este fez do­a­ção do ter­reno onde os si­ques iriam es­ca­var o «lago da imor­ta­li­da­de»..

«“Cons­trói a jan­gada da con­tem­pla­ção, nela atra­ves­sa­rás sem obs­tá­cu­lo,
E não te cho­ca­rás nem com o oce­ano nem com a ma­ré. […]
Aquele que doma o seu ego, se des­poja do ’eu’ e se em­be­leza dessa ma­nei­ra. […]
Já não nos se­pa­ra­mos se nos unir­mos ver­da­dei­ra­mente com o Se­nhor.
En­tão, o vai­vém ter­mi­na, e aper­ce­be­mo-nos do Se­nhor por toda a par­te.”5Sri Gou­rou Granth Sahib, t. III, trad. do pan­ja­bi, do hin­di, do persa e de vá­rios di­a­le­tos in­di­a­nos por Jar­nail Singh, p. 869.

Numa lin­gua­gem muito sim­bó­li­ca, este po­ema re­sume ad­mi­ra­vel­mente o en­si­na­mento [si­que]. O ego (haumai, “eu-eu”) do ho­mem […] é pri­si­o­neiro da vida ma­te­rial e das suas fal­tas, re­pre­sen­ta­das pelo oce­ano e pela ma­ré. Por causa de­las, […] não pode al­can­çar a ou­tra mar­gem, a da eman­ci­pa­ção fi­nal (nirvanu) […]. O ho­mem deve por­tanto pu­ri­fi­car a sua es­sên­cia es­pi­ri­tual (manu), li­ber­tá-la da ganga do “eu-eu” e tor­nar-se por esse meio agra­dá­vel a Deus»

Ma­trin­ge, De­nis, Les Sikhs : his­toire et tra­di­tion des « Li­ons du Pan­jab » (Os Si­ques: his­tó­ria e tra­di­ção dos «Leões do Pan­jab»), Pa­ris: Al­bin Mi­chel, col. «Planète In­de», 2008.

Uma Jerusalém terrestre

A noite cai so­bre o Pend­jab, e o tem­plo de ouro au­re­o­la-se de co­la­res de lam­pa­ri­nas a azeite «cu­jos re­fle­xos na água o fa­zem fre­mir com cin­ti­la­ções de te­souro» (Mir­cea Eli­a­de). O con­tem­pla­dor so­nha en­tão que este lu­gar é muito mais do que pa­re­ce. É a vi­são de uma ci­dade sem­pre «bri­lhante […] apre­sen­tando no­bre­mente aos olha­res […] os seus mi­lha­res de cú­pu­las res­plan­de­cen­tes, so­bre as quais a luz […] cai e res­salta em va­por des­lum­brante» (La­mar­ti­ne). É a pro­messa de uma ci­dade que re­con­ci­lia o ho­mem com o seu se­me­lhan­te, como con­sigo mes­mo, e cuja Je­ru­sa­lém ori­gi­nal me pa­rece afas­tar-se a cada dia:

«Para um cris­tão, o tem­plo de Am­rit­sar pa­rece pre­fi­gu­rar a Je­ru­sa­lém ce­les­te, ci­dade cu­jas por­tas, se­gundo o Apo­ca­lip­se, ja­mais se­rão fe­cha­das a fim de aco­lher to­dos os po­vos6Et am­bu­la­bunt gen­tes in lu­mine ejus, et re­ges terræ af­fe­rent glo­riam suam et ho­no­rem in il­lam. Et portæ ejus non clau­den­tur per di­em; nox enim non erit il­lic (As na­ções ca­mi­nha­rão à sua luz, e os reis da terra tra­rão a ela a sua gló­ria. Dia após dia, ja­mais as por­tas se­rão fe­cha­das; pois não ha­verá mais noi­te). Ap 21, 24-25 (A Bí­blia: tra­du­ção ofi­cial li­túr­gica). di­ante do trono de Deus e do Cor­dei­ro. Com efei­to, há neste lu­gar o anún­cio de uma hu­ma­ni­dade re­con­ci­li­a­da, tanto mais co­mo­vente quando se co­nhece a his­tó­ria do­lo­rosa do Pend­jab e do si­quis­mo.»

Vag­neux, Yann, « Le Tem­ple d’or » (O Tem­plo de ou­ro), La Croix, 12 de ja­neiro de 2024.

Mappemonde mettant en évidence la Turquie et la Grèce.

Aquele que se procurava a si mesmo: grandeza e solidão de Heráclito

Tra­du­zido do fran­cês

He­rá­clito de Éfeso che­ga-nos, do fundo dos tem­pos, atra­vés dos frag­men­tos de um rolo de­po­si­ta­do, no sé­culo V a.C., no tem­plo de Ár­te­mis. Ainda se de­bate se esse rolo era um tra­tado con­tí­nuo, ou se con­sis­tia em pen­sa­men­tos iso­la­dos, como aque­les que o acaso das ci­ta­ções nos con­ser­vou. He­rá­clito ex­pri­mi­a-se, em todo o ca­so, num es­tilo si­bi­li­no, con­den­sa­do, pró­prio para sur­pre­en­der; ado­tava ao mesmo tempo o tom de um pro­feta e a lin­gua­gem de um fi­ló­so­fo. Daí esse epí­teto de Obs­curo ou Te­ne­broso (Σκοτεινός) tão fre­quen­te­mente as­so­ci­ado ao seu no­me, mas que não me pa­rece me­nos exa­ge­ra­do: « De­certo a [sua] lei­tura é de um acesso rude e di­fí­cil. A noite é som­bria, as tre­vas são es­pes­sas. Mas se um ini­ci­ado te gui­ar, ve­rás com cla­reza neste li­vro mais do que em pleno sol » (An­to­lo­gia gre­ga, se­gundo o ma­nus­crito pa­la­tino). Os frag­men­tos que nos res­ta­ram da sua dou­trina são como as ful­gu­ra­ções de uma tem­pes­tade que mis­te­ri­o­sa­mente se ti­vesse re­ti­ra­do, ras­gando a noite pré-so­crá­tica com um fogo com­pa­rá­vel a ne­nhum ou­tro. He­gel, re­tra­çando o sur­gi­mento da « luz do pen­sa­mento », re­co­nhece em He­rá­clito a fi­gura mais ra­di­o­sa­mente cen­tral. Hei­deg­ger re­for­ça: « He­rá­clito é ape­li­dado de “o Obs­cu­ro”. Ora, ele é o Cla­ro. Pois diz aquilo que ilu­mi­na, ten­tando con­vi­dar a sua luz a en­trar na lin­gua­gem do pen­sa­mento »1Hei­deg­ger, Mar­tin, Es­sais et Con­fé­ren­ces (En­saios e Con­fe­rên­cias), trad. de l’al­le­mand par An­dré Préau, préf. de Jean Be­au­fret, Pa­ris : Gal­li­mard, coll. « Les Es­sais », 1958..

A Realeza da recusa

A esta apa­rente obs­cu­ri­dade jun­ta­va-se em He­rá­clito um fundo de or­gu­lho e de des­dém pe­los seus se­me­lhan­tes. Pois quando um fi­ló­sofo é or­gu­lho­so, nunca o é a mei­as. Prín­cipe her­dei­ro, aban­do­nou sem di­fi­cul­dade a dig­ni­dade real ao seu ir­mão, e de­pois re­cu­sou le­gis­lar para uma ci­dade que jul­gava ir­re­me­di­a­vel­mente « sob o do­mí­nio de uma má cons­ti­tui­ção » (πονηρᾷ πολιτείᾳ). Ei-lo re­ti­rado no san­tuá­rio de Ár­te­mis, jo­gando aos os­si­nhos com cri­an­ças. Acor­riam cu­ri­o­sos à sua vol­ta? Lan­ça­va-lhes:

« Por­que vos es­pan­tais, ma­lan­dros? Não é me­lhor fa­zer isto do que le­var con­vosco a vida da ci­da­de? » (Τί, ὦ κάκιστοι, θαυμάζετε ; Ἢ οὐ κρεῖττον τοῦτο ποιεῖν ἢ μεθ’ ὑμῶν πολιτεύεσθαι ;)

Di­ogène Laër­ce, Li­vre IX, trad. du grec par Jac­ques Bruns­chwig, dans Vies et Doc­tri­nes des phi­lo­sophes il­lus­tres (Vi­das e Dou­tri­nas dos fi­ló­so­fos ilus­tres), trad. sous la dir. de Ma­ri­e-O­dile Gou­let-Ca­zé, Pa­ris : Li­brai­rie gé­né­rale fran­çai­se, coll. « La Po­chothè­que », 1999.

Este sá­bio não pre­ci­sava de nin­guém, des­pre­zando até a com­pa­nhia dos dou­tos. To­da­via, não era um ho­mem in­sen­sí­vel; e quando se afli­gia com as des­gra­ças que te­ciam a exis­tên­cia hu­ma­na, as lá­gri­mas su­bi­am-lhe aos olhos. « Pro­cu­rei-me a mim mesmo » (Ἐδιζησάμην ἐμεωυτόν), con­fessa ele, como se fosse o único a ver­da­dei­ra­mente re­a­li­zar o pre­ceito dél­fico « Co­nhe­ce-te a ti mesmo ». Ni­etzs­che sen­tirá o ter­ror sa­grado desta au­tar­cia: « nada se pode adi­vi­nhar », dirá o fi­ló­sofo da von­tade de po­tên­cia, « do que terá sido o sen­ti­mento de so­li­dão que pe­ne­trava o ere­mita efé­sio do tem­plo de Ár­te­mis, se não nos en­con­trar­mos nós mes­mos pe­tri­fi­ca­dos de pa­vor na mon­ta­nha mais de­sér­tica e mais sel­va­gem »2Ni­etzs­che, Fri­e­dri­ch, La Phi­lo­sophie à l’é­po­que tra­gi­que des Grecs (A Fi­lo­so­fia na época trá­gica dos Gre­gos), trad. de l’al­le­mand par Mi­chel Haar et Marc de Lau­nay, dans Œuvres (Obras). I, trad. sous la dir. de Marc de Lau­nay, Pa­ris : Gal­li­mard, coll. « Bi­bli­othè­que de la Pléi­ade », 2000..

A Vertigem do escoamento universal

En­quan­to, na ou­tra ex­tre­mi­dade do mundo gre­go, a es­cola de Eleia fi­xava o ser numa imo­bi­li­dade de ge­lo, He­rá­clito con­cebe a uni­dade como um rio em per­pé­tuo mo­vi­men­to, que per­ma­nece o mes­mo, em­bora sem­pre di­fe­ren­te, em­pur­rando as on­das no­vas sem des­canso as an­ti­gas di­ante de­las3Por esta ima­gem, He­rá­clito não diz ape­nas que a exis­tên­cia está vo­tada às vi­cis­si­tu­des e aos de­clí­ni­os, mas que ne­nhuma coisa é isto ou aqui­lo: ela torna-se. O mundo as­se­me­lha-se ao ciceão (κυκεών), essa mis­tura de vi­nho, queijo ra­lado e fa­ri­nha de ce­va­da, cuja con­sis­tên­cia es­pessa só man­tém a sua uni­dade pela agi­ta­ção. Quando esta ces­sa, os ele­men­tos dis­so­ci­am-se, o pe­sado volta a cair, e essa be­bida ri­tual deixa de exis­tir. O mo­vi­mento re­ve­la-se as­sim cons­ti­tu­tivo da união dos con­trá­ri­os: « Mesmo o ciceão se de­com­põe se não o agi­tar­mos » (Καὶ ὁ κυκεὼν διίσταται μὴ κινούμενος).. Con­tra a ilu­são co­mum da per­sis­tên­cia, nada é es­tá­vel: « Tudo es­coa » (Πάντα ῥεῖ), « Tudo é devir » (He­gel), « To­das as coi­sas […] os­ci­lam sem ces­sar […]. Não pinto o ser. Pinto a pas­sa­gem » (Mon­taig­ne).

O es­co­a­mento de to­das as coi­sas tem como con­sequên­cia que tudo se con­verte no seu con­trá­rio. Se o ser não existe se­não na mu­dan­ça, é fa­tal­mente um meio en­tre dois ter­mos opos­tos; a cada ins­tan­te, es­ta­mos pe­rante esse li­mite ina­pre­en­sí­vel onde se to­cam duas qua­li­da­des con­trá­ri­as. Uma lei ter­rí­vel que se aplica ao pró­prio ser hu­ma­no, cuja cada idade é a morte da pre­ce­den­te:

« Não de­sa­pa­re­ceu o lac­tante na cri­an­ça, e a cri­ança no ra­paz, o efebo no ado­les­cen­te, o ado­les­cente no jo­vem, e de­pois […] o ho­mem feito no ve­lho […]? Tal­vez […] a na­tu­reza nos en­sin[e] si­len­ci­o­sa­mente a não re­cear a morte de­fi­ni­ti­va? »

Phi­lon d’A­le­xan­drie, De Io­sepho, trad. du grec par Jean La­por­te, Pa­ris : Édi­ti­ons du Cerf, coll. « Les Œu­vres de Phi­lon d’A­le­xan­drie » (« As Obras de Fí­lon de Ale­xan­dria »), 1964.

A Estética do jogo cósmico

Em busca de uma afir­ma­ção trá­gica da vi­da, Ni­etzs­che fará do ere­mita de Éfeso o seu mais pró­ximo an­te­pas­sa­do. « O mun­do, na sua eterna ne­ces­si­dade de ver­da­de, tem […] eter­na­mente ne­ces­si­dade de He­rá­clito », de­cla­ra­rá. E nou­tro lu­gar:

« […] o con­ví­vio com He­rá­clito dei­xa-me mais à von­tade e re­con­for­ta-me mais do que qual­quer ou­tro. A aqui­es­cên­cia à im­per­ma­nên­cia e ao aniquilamento; o “sim” dito à con­tra­di­ção e à guer­ra; o devir, im­pli­cando a re­cusa da pró­pria no­ção de “ser” — nis­to, devo re­co­nhe­cer […] o pen­sa­mento mais pró­ximo do meu que ja­mais foi con­ce­bi­do. »

Ni­etzs­che, Fri­e­dri­ch, L’Antéchrist (O An­ti­cristo), suivi de Ecce homo, trad. de l’al­le­mand par Je­an-Claude Hé­mery, Pa­ris : Gal­li­mard, coll. « Fo­lio », 1974.

O que o fi­ló­sofo ale­mão aí en­con­trará so­bre­tudo é o an­tí­doto ao pes­si­mismo scho­pe­nhau­e­ri­a­no. Longe de ver­gar sob o jugo de pre­ten­sas fal­tas, in­jus­ti­ças, con­tra­di­ções, so­fri­men­tos, a re­a­li­dade li­ber­ta-se de toda a mo­ral: é « uma cri­ança que brin­ca, que move peões: re­a­leza de uma cri­ança » (παῖς […] παίζων, πεσσεύων· παιδὸς ἡ βασιληίη). Se He­rá­clito se mis­tu­rava com as brin­ca­dei­ras das cri­an­ças rui­do­sas no san­tuá­rio de Ár­te­mis, é por­que aí me­di­tava já o « jogo da grande cri­an­ça-mundo », isto é, Deus. A von­tade de po­tên­cia es­bo­ça-se aqui no es­pí­rito de Ni­etzs­che: uma força ar­tista que cons­trói e des­trói, com a su­blime ino­cên­cia de uma cri­ança que co­loca aqui e ali al­guns sei­xos, ou er­gue mon­tes de areia para os der­ru­bar de no­vo, para além do bem e do mal. É nos pas­sos do Obs­curo que Ni­etzs­che « se pre­para para se tor­nar o Anticristo, isto é, aquele que re­jeita a sig­ni­fi­ca­ção mo­ral do mundo ».

Mappemonde mettant en évidence la Corée du Sud et la Corée du Nord.

A Voz múltipla do povo: O Canto da fiel Chu­nhyang

Tra­du­zido do fran­cês

É ne­ces­sá­rio to­mar o tí­tulo à le­tra: O Canto de Chu­nhyang (Chunhyangga)1For­mas re­jei­ta­das:
Le Dit de Chu­nhyang (O Dito de Chu­nhyang).
Ch’un-hyang ka.
Choon Hyang Ga.
Čchunhjangga.
é, an­tes de mais, um can­to. Para lhe apre­en­der a es­sên­cia, fe­chem os olhos e ima­gi­nem um palco nu, ocu­pado por um can­tor com le­que e um tam­bo­ri­lei­ro. Este duo basta para en­car­nar o pansori, essa arte au­ten­ti­ca­mente co­re­ana que Serge Ka­ganski si­tua «na en­cru­zi­lhada do te­a­tro, da ópe­ra, da per­for­man­ce, do gos­pel e do two-man-show». O tam­bor res­soa e a voz rouca ele­va-se, es­can­dida pelo le­que que se abre e se fe­cha com um es­ta­lido seco que marca o com­pas­so. Ar­re­ba­ta­do, o pú­blico re­age em unís­so­no, qual «coro bap­tista», numa co­mu­nhão in­tensa que roça o tran­se.

Nas­ci­do, pois, nos pal­cos, este canto lí­rico fez-se nar­ra­tiva e vi­a­jou, le­vado pela tra­di­ção oral. Ao longo dos sé­cu­los, uma mi­ríade de au­to­res anó­ni­mos en­ri­que­ceu-o, agre­gan­do-lhe ou­tros con­tos de ins­pe­to­res re­ais e de amo­res proi­bi­dos. Desta ma­té­ria viva aca­ba­ram por se­di­men­tar-se, ca­mada após ca­ma­da, tex­tos fi­xa­dos, edi­ções li­te­rá­rias de re­fe­rên­cia, das quais as mais cé­le­bres são A His­tó­ria de Chu­nhyang (Chunhyangjeon)2For­mas re­jei­ta­das:
His­toire de Tchoun Hyang (His­tó­ria de Tchoun Hyang).
His­toire de Tchyoun hyang (His­tó­ria de Tchyoun hyang).
His­toire de Tchun-hyang (His­tó­ria de Tchun-hyang).
Tchoun-Hyang-Djun.
Tchyoun hyang tjyen.
Tchun-Hyang Chòn.
Tchun-hyang djŏn.
Ch’unhyangdyŏn.
Ch’unhyangjŏn.
Choon Hyang Jun.
Choon-hyang-chon.
Choon Hyang Jon.
Chun-hyang-jon.
Ch’un-hyang Chŏn.
Chun-hyang-chun.
Chun-chyang-chun.
Czhun-hi­ang dzon.
Čchunhjangdžŏn.
, ou edi­ção gyeongpan, e O Canto da fiel Chu­nhyang (Ye­olnyeo Chu­nhyang Su­je­olga)3For­mas re­jei­ta­das:
L’His­toire de la cons­tance de Chu­nhyang, femme fidèle (A His­tó­ria da cons­tân­cia de Chu­nhyang, mu­lher fiel).
Yol-nyo Ch’un-hyang Su-jeol Ga.
Ye­olnye Chu­nhyang Su­je­olga.
Yeollyeo-Chunhyang-Sujeolga.
, ou edi­ção wanpan.

O Idílio primaveril

A in­triga narra o amor en­tre Chu­nhyang («­Pri­ma­vera per­fu­ma­da»), fi­lha de uma an­tiga cor­te­sã, e Mong-ryong («­So­nho de dra­gão»)4Em cer­tas fon­tes, em vez do seu nome pró­prio Mong-ryong, o he­rói é de­sig­nado pela de­no­mi­na­ção Yi Dorye­ong. Esta forma amal­gama o seu ape­lido Yi e o tí­tulo res­pei­toso doryeong dado ao fi­lho não ca­sado de um no­bre. Na re­a­li­da­de, sig­ni­fica sim­ples­mente «o jo­vem Se­nhor Yi, o jo­vem Yi».
For­mas re­jei­ta­das:
Ye Toh Ryung.
I-Toreng.
Ri To ryeng.
Lee Doryong.
, fi­lho de um no­bre go­ver­na­dor. Em Namwon, na pro­vín­cia de Je­ol­la, no mo­mento em que as flo­res co­me­çam a de­sa­bro­char, o jo­vem le­trado aban­dona a bi­bli­o­teca pa­terna para pas­sear ao ar li­vre. Lá, avista Chu­nhyang a ba­loi­çar-se. Este pri­meiro en­con­tro é pin­tado com a de­li­ca­deza das mais fi­nas es­tam­pas:

«Ela agar­rou a corda com as suas de­li­ca­das mãos, su­biu para a tá­bua e le­van­tou voo. […] As fo­lhas das ár­vo­res acom­pa­nha­vam o seu vai­vém. O ver­me­lho da sua saia fa­zia uma man­cha fe­liz so­bre o verde cir­cun­dan­te. […] Vista de fren­te, era a an­do­ri­nha que mer­gu­lha para apa­nhar em pleno voo uma pé­tala de flor de pes­se­gueiro que des­liza para o chão. De cos­tas, pa­re­cia uma bor­bo­leta mul­ti­co­lor que se afasta em busca da sua com­pa­nhei­ra.»

Le Chant de la fidèle Chu­nhyang (O Canto da fiel Chu­nhyang), trad. do co­re­ano por Choi Mikyung e Je­an-Noël Jut­tet, Ca­dei­lhan: Zul­ma, 1999; re­ed. Pa­ris; Veu­les-les-Ro­ses: Zul­ma, col. «Z/a», 2025.

O amor, ful­mi­nante e ime­di­a­to, leva o jo­vem no­bre a de­sa­fiar as con­ven­ções. Di­ri­ge-se a casa dela de noi­te. Trans­posto o li­miar do quar­to, esta fi­lha do povo re­ve­la-se não me­nos ins­truída e re­fi­nada do que ele: o olhar va­gueia por po­e­mas da sua au­to­ria pen­du­ra­dos so­bre a sua mesa de tra­ba­lho, por ca­li­gra­fi­as, pin­tu­ras. É neste ce­ná­rio que os aman­tes tro­cam os seus vo­tos, se­lando uma união que ainda man­têm se­cre­ta, se­pa­ra­dos que es­tão pelo nas­ci­mento e pela for­tu­na.

A Prova da constância

En­tre­tan­to, o pai de Mong-ryong é cha­mado a Hanyang (Seul); o jo­vem deve se­gui-lo para ter­mi­nar os seus es­tu­dos e pres­tar os con­cur­sos man­da­ri­nais. Deixa para trás uma es­posa apai­xo­nada e fiel que, nova Pe­né­lope aguar­dando o re­gresso do seu Ulis­ses, jura hon­rar um «ju­ra­mento mil ve­zes mais pre­ci­oso que o ou­ro, mil ve­zes mais belo que o jade».

O drama de­sen­ro­la-se com a che­gada de um su­ces­sor ao posto de go­ver­na­dor, Byun Hak-do, ho­mem lu­xu­ri­oso e bru­tal. Tendo ou­vido fa­lar da be­leza de Chu­nhyang, exige que ela se po­nha ao seu ser­vi­ço. A cha­mada das kisaengs é de uma tru­cu­lên­cia ra­be­lai­si­a­na, onde des­fi­lam no­mes evo­ca­do­res, tais como Me­nina «Bruma mis­te­ri­o­sa», «Flor de al­per­ce» ou «Fada do ri­o». Só Chu­nhyang falta à cha­ma­da. Ar­ras­tada pe­rante o ti­ra­no, ousa en­fren­tá-lo, ar­gu­men­tando que uma mu­lher vir­tu­osa não pode ser­vir dois ma­ri­dos, ainda que seja de baixa ex­tra­ção:

«A vir­tu­de, a fi­de­li­dade têm algo a ver com a con­di­ção so­ci­al?»

Le Chant de la fidèle Chu­nhyang (O Canto da fiel Chu­nhyang), trad. do co­re­ano por Choi Mikyung e Je­an-Noël Jut­tet, Ca­dei­lhan: Zul­ma, 1999; re­ed. Pa­ris; Veu­les-les-Ro­ses: Zul­ma, col. «Z/a», 2025.

Por esta in­so­lên­cia, so­fre o su­plí­cio. Cada golpe de chi­cote que lhe cai em cima tor­na-se oca­sião de um canto de re­sis­tên­cia, uma li­ta­nia do­lo­rosa em que re­a­firma a sua le­al­da­de. «Mesmo que me ma­tem dez mil ve­zes», clama ela, «o amor que ha­bita no meu co­ra­ção, o amor que liga as seis mil ar­ti­cu­la­ções do meu cor­po, esse amor não mu­da­rá.»

Nada di­rei do de­sen­la­ce, se­não que é fe­liz.

A Revanche dos corações contra os rigores do arbítrio

O Canto da fiel Chu­nhyang abraça toda a es­cala so­cial do An­tigo Re­gi­me, do mais alto para Mong-ryong ao mais baixo para Chu­nhyang. O seu su­cesso de­ve-se ao facto de «ou­sar fa­lar em voz alta de amor neste país onde os jo­vens co­ra­ções su­fo­ca­vam sob a au­to­ri­dade» e onde o ca­sa­men­to, as­sunto de ra­zão, se tra­tava fri­a­mente sem que ti­ves­sem voz na ma­té­ria. Esta rei­vin­di­ca­ção ín­tima du­pli­ca-se numa de­nún­cia po­lí­tica dos abu­sos e da cor­rup­ção que pre­va­le­ciam en­tre os di­ri­gen­tes.

É cer­to, con­fes­so-o, que a nar­ra­tiva so­fre por ve­zes dos di­ver­sos acres­cen­tos que sus­ci­tou; o Bul­le­tin cri­ti­que du li­vre en fran­çais as­si­nala aí «al­gu­mas in­co­e­rên­ci­as, jus­ti­fi­ca­ções de­sa­jei­ta­das, […] in­ge­nui­dade e sen­ti­men­ta­lis­mos pi­e­gas». Con­tu­do, se­me­lhante a uma con­cha que res­ti­tui o ru­mor do oce­a­no, con­ser­va, sob tudo is­to, «um mur­mú­rio e como que um vasto zum­bido sur­do: a grande voz in­fi­nita e múl­ti­pla» dos po­e­tas do povo que can­tam em re­dor5Para ci­tar Hip­polyte Taine e a sua ma­gis­tral Phi­lo­sophie de l’art (Fi­lo­so­fia da arte).. A sua alma vi­bran­te, os seus sen­ti­men­tos bons e pu­ros fi­ze­ram pas­sar esta obra atra­vés dos sé­cu­los; vi­vi­fi­cam-na ainda ho­je, du­rante o grande fes­ti­val de Namwon, onde ri­va­li­zam os me­lho­res myeongchang (mes­tres can­to­res). Lee Me­e-Je­ong re­fere que al­guns de­les se exer­ci­tam com tanto ar­dor «a fim de dar à sua voz a per­fei­ção da ex­pres­si­vi­dade que che­gam a cus­pir san­gue». Longe de vão, o seu sa­cri­fí­cio é sau­dado pelo pú­blico que se le­vanta para aplau­dir, com lá­gri­mas nos olhos. E «es­tas lá­gri­mas de es­pe­ta­do­res con­tem­po­râ­neos são tão co­mo­ven­tes como as afron­tas e re­en­con­tros dos aman­tes da fic­ção».

Mappemonde mettant en évidence le Canada et la France.

O Náufrago Celeste: Émile Nelligan

Tra­du­zido do fran­cês

«Nel­li­gan é len­dá­rio. O povo que­be­quense é ele pró­prio, de certo mo­do, um so­nho, ima­gi­nado em­bora re­al, in­certo ainda que per­sis­ten­te, e a prazo — quem sa­be? — tal­vez sal­vo, tal­vez per­di­do. Há co­mu­ni­ca­ção en­tre es­tas duas len­das.»

Va­de­bon­co­eur, Pi­er­re. «É­mile Nel­li­gan (1879-1941), poè­te» («É­mile Nel­li­gan (1879-1941), po­e­ta»), em En quel­ques traits (Em al­guns tra­ços), Mon­tre­al: Fi­des, 1978.

Será ne­ces­sá­rio re­cor­dar que as le­tras ca­na­di­a­no-fran­ce­sas con­tam ape­nas dois sé­cu­los de exis­tên­cia; que mal saí­ram da in­fân­cia? Ainda po­bres em gló­rias li­te­rá­ri­as, pos­suem to­da­via uma que en­carna exem­plar­mente a sua pró­pria ju­ven­tu­de. Esta gló­ria é Émile Nel­li­gan1For­mas re­jei­ta­das:
Émil Nel­lighan.
Émile Ko­var.
: um ado­les­cente de de­zas­sete anos, quase uma cri­an­ça. Mas por uma trá­gica in­ver­são da or­dem na­tu­ral, nesta idade es­pon­tâ­nea que, se­gundo Bos­su­et, «pa­rece ter sido for­mada ape­nas para a ale­gria e para os pra­ze­res» e que «es­tende as ve­las de to­dos os la­dos à es­pe­rança», Nel­li­gan já nada es­pe­ra; está à de­ri­va:

«Ne­gra é mi­nha al­ma: onde es­tou? Aonde vou?
To­das as es­pe­ran­ças ja­zem ge­la­das:
Sou a No­ru­ega no­va, aban­do­na­da,
De onde os lou­ros céus par­ti­ram — não vol­tou.»

Nel­li­gan, Émi­le. Poé­sies com­plè­tes (Po­e­sias com­ple­tas), pre­fá­cio de Claude Be­au­so­leil e de Louis Dan­tin, Mon­tre­al: Ty­po, col. «Typo Poé­si­e», 1998.

E não é ape­nas nes­tes ver­sos, sob o efeito de uma de­si­lu­são pas­sa­gei­ra, que ele ex­pe­ri­menta este de­sen­can­to. É ao longo de to­das as suas Poé­sies com­plè­tes (Po­e­sias com­ple­tas), no­bres de­va­neios de um anjo mal­di­to, que per­ma­ne­ceu alheio aos com­pro­mis­sos que a vida im­põe.

O Anjo Maldito

Numa cé­le­bre fo­to­gra­fia, este ma­gro es­tu­dante de rosto pá­lido e ca­be­los des­gre­nha­dos fas­cina pe­los seus gran­des olhos lí­qui­dos, in­fi­ni­tos; olhos que mu­da­vam, que com­pre­en­di­am, que so­nha­vam. An­dava com os de­dos man­cha­dos de tin­ta, a so­bre­ca­saca em de­sor­dem, e em tudo is­to, um ar al­ti­vo. «É um ra­paz es­tra­nho», di­ziam uns; «um pouco pre­ten­si­oso», acha­vam ou­tros. Mas o seu or­gu­lho era ape­nas uma fa­chada que mal dis­si­mu­lava uma sen­si­bi­li­dade exas­pe­ra­da, ora trans­bor­dante de en­tu­si­as­mo, ora en­som­brada por uma fe­roz e ame­a­ça­dora me­lan­co­lia:

«É o reino do riso amargo e do tor­mento
De se sa­ber po­eta e alvo de des­pre­zo,
De se sa­ber um co­ra­ção e vi­ver preso
Só com­pre­en­dido pelo luar e o ven­to!»

Nel­li­gan, Émi­le. Poé­sies com­plè­tes (Po­e­sias com­ple­tas), pre­fá­cio de Claude Be­au­so­leil e de Louis Dan­tin, Mon­tre­al: Ty­po, col. «Typo Poé­si­e», 1998.

A in­com­pre­en­são am­bi­ente e as vi­gí­lias pas­sa­das a ra­bis­car ver­sos fe­bris onde «já, en­tre tra­ços cin­ti­lan­tes, a des­ra­zão mos­trava a sua garra he­di­onda»2O traço so­bre a «garra he­di­onda» é de Louis Dan­tin no seu «É­mile Nel­li­gan et son Œu­vre» («É­mile Nel­li­gan e a sua Obra») pu­bli­cado em sete nú­me­ros no jor­nal Les Dé­bats (Os De­ba­tes) (1902) e tor­nado logo o mí­tico pre­fá­cio (1903) que re­ve­lou não ape­nas um dos me­lho­res po­e­tas do Ca­nadá fran­cês (Nel­li­gan), mas tam­bém um dos seus me­lho­res es­te­tas (Dan­tin). aca­ba­ram por mi­nar a sua saúde an­tes do tem­po. Mor­reu duas ve­zes: pri­mei­ro, de morte in­te­lec­tual ou de lou­cura aos de­za­nove anos; de­pois, de morte cor­po­ral aos cin­quenta e sete anos.

O Riso e os Soluços

Não há dú­vida de que Nel­li­gan so­freu cru­el­mente com esta in­com­pre­en­são. Ele, que só so­nhava com Pa­ris, afir­mava que os seus ver­sos vo­a­riam até lá um dia, para re­gres­sa­rem em belo li­vro. Tal am­bi­ção, ju­ve­nil e vi­bran­te, ofe­re­cia uma presa fá­cil à crí­tica ma­le­vo­len­te. O ata­que mais vi­ru­lento veio do Monde il­lus­tré, pela pena de um vago jor­na­lista de pas­sa­gem por Mon­tre­al, De Mar­chy ou De Mar­chi, cujo nome pró­prio a his­tó­ria es­que­ceu. Com uma iro­nia fá­cil e uma mes­qui­nha es­trei­teza de es­pí­ri­to, este cen­sor ri­di­cu­la­ri­zou a ori­gi­na­li­dade do ado­les­cen­te, che­gando a su­ge­rir-lhe, num tom de co­mi­se­ra­ção, que es­cre­vesse «uma pe­quena tese em sim­ples prosa» para pro­var o seu mé­ri­to, acres­cen­tando per­fi­da­men­te: «pois en­co­ra­ja­mos os jo­vens es­cri­to­res».

Ul­ce­ra­do, Nel­li­gan não tar­dou a res­pon­der du­rante uma ses­são me­mo­rá­vel da École lit­té­raire de Mon­tréal, a 26 de Maio de 1899. Nessa noi­te, pe­rante os seus de­trac­to­res, es­ses «ho­mens de fron­tes mo­ro­sas / Que des­de­nha­vam a [sua] vida e re­pe­liam a [sua] mão», o jo­vem er­gueu-se. Crina ao ven­to, o olhar in­fla­ma­do, lan­çou de um só fô­lego a sua ré­plica cor­tan­te, «La ro­mance du vin» («O ro­mance do vi­nho»), que fez de­li­rar a sa­la. Foi si­mul­ta­ne­a­mente o seu triunfo e a sua des­pe­di­da:

«Os si­nos can­ta­ram; e a brisa da tarde odo­ra…
E en­quanto o vi­nho jorra em ale­gre tor­ren­te,
Es­tou tão ale­gre, ale­gre, no meu riso ar­den­te,
Oh! tão ale­gre, que em pranto temo ex­plo­dir ago­ra!»

Nel­li­gan, Émi­le. Poé­sies com­plè­tes (Po­e­sias com­ple­tas), pre­fá­cio de Claude Be­au­so­leil e de Louis Dan­tin, Mon­tre­al: Ty­po, col. «Typo Poé­si­e», 1998.

«Le vaisseau d’or» («O navio de ouro»)

Pro­duto de uma im­pro­vá­vel al­qui­mia, Nel­li­gan re­ve­la-se pró­ximo de Poe pelo ma­ca­bro, de He­re­dia pelo seu verbo cin­ze­la­do, de Ner­val pe­las suas nos­tal­gias oní­ri­cas, mas tam­bém de Ro­den­bach pe­las bru­mas e de Cho­pin por uma mú­sica da al­ma. Cul­tiva com or­gu­lho «as suas neu­ro­ses», con­fi­den­ci­an­do: «Mor­re­rei lou­co… como Bau­de­laire». Sob o as­salto de al­gum so­nho ob­si­di­an­te, de al­guma ideia do­mi­na­do­ra, pre­ci­pi­ta-se para o ab­so­luto com «todo o es­for­ço, todo o san­gue da alma», o que leva Louis Dan­tin a di­zer: «Ad­mi­tindo que o ho­mem e a obra não se­jam mais que um es­bo­ço, é ne­ces­sá­rio afir­mar que é um es­boço de gé­nio».

Este es­boço de gé­nio pos­sui as lu­ci­de­zes as­sus­ta­do­ras de «o [que] os An­ti­gos cha­ma­vam em la­tim “va­tes”, o adi­vi­nho, o vi­den­te, o pro­fe­ta, o po­eta ins­pi­rado pe­los deu­ses»3Claude La Cha­ri­té.. Ro­ger Four­nier evoca o «ter­rí­vel mo­mento» em que o ar­tista vê o seu fim an­tes de o vi­ver. Esta pre­mo­ni­ção en­car­na-se em «Le vais­seau d’or» («O na­vio de ou­ro»), o seu so­neto mais em­ble­má­ti­co. Nel­li­gan pinta aí o es­plen­dor de um na­vio triun­fan­te, «ta­lhado em ouro ma­ciço», na­ve­gando por ma­res des­co­nhe­ci­dos. Mas este qua­dro glo­ri­oso está lá ape­nas para ser me­lhor des­truí­do. Numa queda trá­gi­ca, o na­vio em­bate no re­cife e afun­da, dei­xando ape­nas ri­cas re­lí­qui­as. O lei­tor com­pre­ende en­tão, com pa­vor, que se trata do pró­prio po­e­ta, pro­fe­ti­zando o seu pró­prio nau­frá­gio:

«Que foi feito do meu co­ra­ção, na­vio de­ser­ta­do?
Ai de mim! afun­dou no abismo do so­nho…»

Nel­li­gan, Émi­le. Poé­sies com­plè­tes (Po­e­sias com­ple­tas), pre­fá­cio de Claude Be­au­so­leil e de Louis Dan­tin, Mon­tre­al: Ty­po, col. «Typo Poé­si­e», 1998.

Mappemonde mettant en évidence le Japon.

As Ho­ras oci­o­sas: Flânerie filosófica com o monge Kenkô

Tra­du­zido do fran­cês

Joia da li­te­ra­tura de ere­mi­té­rio, As Ho­ras oci­o­sas (Tsurezure-gusa)1For­mas re­jei­ta­das:
Cahier des heu­res oi­si­ves (Ca­derno das ho­ras oci­o­sas).
Va­rié­tés sur des mo­ments d’en­nui (Va­ri­e­da­des so­bre mo­men­tos de té­dio).
Va­rié­tés sur des mo­ments de désœu­vre­ment (Va­ri­e­da­des so­bre mo­men­tos de oci­o­si­dade).
Ré­fle­xi­ons li­bres (Re­fle­xões li­vres).
Écrit dans des mo­ments d’en­nui (Es­crito em mo­men­tos de té­dio).
Pro­pos des mo­ments per­dus (Pa­la­vras dos mo­men­tos per­di­dos).
Les Her­bes de l’en­nui (As Er­vas do té­dio).
Les Di­vers Mo­ments de loi­sirs (Os Di­ver­sos Mo­men­tos de la­zer).
Tsou­ré­zouré Gouça.
Tsure-dzure-gusa.
Tsouré-dzouré-gousa.
são um con­vite in­tem­po­ral a cap­tar a be­leza fu­gaz do mundo an­tes que se­que «o or­va­lho nas pla­ní­cies de Adashi» e se des­va­ne­çam «os fu­mos do monte To­ribe» (cap. VII)2Si­tu­a­das a no­ro­este de Qui­o­to, as pla­ní­cies de Adashi ser­viam ou­trora de vasto ce­mi­té­rio onde se aban­do­na­vam os cor­pos aos ele­men­tos. O monte To­ri­be, si­tu­ado a su­des­te, era por sua vez o lu­gar das cre­ma­ções.. O au­tor, Urabe Kenkô ou o monge Kenkô (1283-1350)3For­mas re­jei­ta­das:
Urabe Ka­neyoshi.
Yoshida Ka­neyoshi.
Yoshida Kenkô.
Yoshida Kennkô.
o abade Ken­ko.
o bonzo Kenkô.
o re­ve­rendo Kenkō.
Kenkō o hōshi.
Kennkô hôshi.
Kenkō-bōshi.
Kenkô bô­ci.
, não foi nem um as­ceta fe­roz nem se­quer um de­voto no sen­tido es­trito do ter­mo. Ofi­cial da guar­da, en­car­re­gado de acom­pa­nhar o im­pe­ra­dor Go-U­da, só es­co­lheu en­trar na vida re­li­gi­osa após a morte do seu pro­te­tor, e fê-lo para ob­ser­var os seus con­tem­po­râ­neos à dis­tân­cia. Numa época em que os «sol­da­dões do Kantô», mi­li­ta­res sem cul­tu­ra, afli­giam a corte com um «modo de vida afas­tado de toda a hu­ma­ni­da­de, mais pró­ximo do das bes­tas» (cap. LXXX), Kenkô soube pre­ser­var o es­sen­ci­al: o an­tigo gos­to.

«Kenkô […] é um clás­sico atra­sa­do. […] os seus en­saios as­se­me­lham-se à con­ver­sa­ção po­lida de um ho­mem do mun­do, e têm aquele ar de sim­pli­ci­dade e aquela fa­ci­li­dade de ex­pres­são que são, na re­a­li­da­de, fruto de uma arte con­su­ma­da.

Não se po­de, para co­me­çar o es­tudo da an­tiga li­te­ra­tura ja­po­ne­sa, fa­zer me­lhor es­co­lha do que a das Ho­ras oci­o­sas.»

As­ton, Wil­liam Ge­or­ge. Lit­té­ra­ture ja­po­naise (Li­te­ra­tura ja­po­nesa), trad. do in­glês por Henry Du­rand-Da­vray. Pa­ris: A. Co­lin, col. «His­toi­res des lit­té­ra­tu­res», 1902. (Bi­bli­othè­que na­ti­o­nale de France (BnF)).

Ao exa­mi­nar esta obra rica em con­fi­dên­ci­as, dis­cer­ne-se em Kenkô duas per­so­na­li­da­des con­tras­tan­tes: o aris­to­crata e o mon­ge. Pre­co­ni­za, de­cer­to, o des­pren­di­mento bu­dis­ta, mas con­fessa que «o ho­mem que não ti­vesse o gosto pela vida amo­rosa» se as­se­me­lha­ria a uma «taça de cris­tal à qual fal­tasse o fundo» (cap. II­I). Cri­tica o apego aos bens ma­te­ri­ais, mas sente «sem­pre uma pal­pi­ta­ção do co­ra­ção» (cap. VI­II) ao re­cor­dar os ce­ná­rios do pa­lá­cio, os aces­só­rios dos tra­jes ou a mag­ni­fi­cên­cia das ce­ri­mó­ni­as. Fus­tiga a em­bri­a­guez gros­sei­ra, mas ad­mite que um copo de sake par­ti­lhado en­tre «ami­gos ín­ti­mos junto ao fogo» (cap. CLXXV), numa noite de ne­ve, é um dos en­can­tos da exis­tên­cia. Es­tas duas fa­ces do seu ca­rá­ter com­bi­nam-se para «for­mar um tipo de sol­tei­rão [ver­da­dei­ra­men­te] sim­pá­ti­co, e que se torna ainda mais quando me­di­ta­mos a nosso bel-pra­zer os pen­sa­men­tos e os con­se­lhos, de tão ín­tima sa­be­do­ria, que pre­en­chem a maior parte do seu es­crito», ex­plica Mi­chel Re­von. Con­si­de­ro-o o maior mo­ra­lis­ta, o es­pí­rito mais har­mo­ni­oso e mais puro do Ja­pão.

A Essência do zuihitsu: Seguir o capricho do pincel

«Zuihitsu, “ao cor­rer do pin­cel” […]. O bonzo Kenkô compôs o mais belo li­vro deste gé­ne­ro. É o meu mes­tre. Fui a Qui­oto para cho­rar no lu­gar onde ele ti­nha vi­vi­do. Um bonzo con­du­ziu-me lá. […] “O abade Kenkô”, dis­se-me ele […], “são [as flo­res] que es­tão ali!” Os ja­po­ne­ses são como as es­ta­ções; tudo re­gressa […] com eles. Nós so­mos como a his­tó­ria; tudo morre con­nos­co.»

Quig­nard, Pas­cal. Pe­tits Trai­tés (Pe­que­nos Tra­ta­dos). Pa­ris: Ma­eght, 1990; re­ed. Pa­ris: Gal­li­mard, col. «Fo­li­o», 1997.

As Ho­ras oci­o­sas per­ten­cem a esse gé­nero li­te­rá­rio tão par­ti­cu­lar, o zuihitsu («ao fio do pin­cel»)4For­mas re­jei­ta­das:
«Li­te­ra­tura im­pres­si­o­nis­ta».
«Se­guindo o pin­cel».
«Se­guindo o ca­pri­cho do pin­cel».
«Es­cri­tos ao fio do pin­cel».
«Miscelâneas».
«Ensaios».
«En­saio ao fio do pin­cel».
«En­saio ao fio da pe­na».
«No­tas to­ma­das ao cor­rer da pe­na».
«Ao cor­rer do pin­cel».
«Dei­xando cor­rer o pin­cel».
«Ao sa­bor do pin­cel».
Zouï-hitsou.
, no qual os ja­po­ne­ses in­cluem tam­bém os Ensaios de Mon­taig­ne. E esta apro­xi­ma­ção en­tre Kenkô e o nosso fi­dalgo fran­cês, por ser con­ven­ci­o­nal, não deixa de ser jus­ta. En­con­tra­mos num e nou­tro esse gosto se­guro e de­li­ca­do, essa me­lan­co­lia que nunca é de­ses­pe­ro, esse en­tu­si­asmo todo hu­ma­nista não tanto pela An­ti­gui­dade quanto pela an­tiga vir­tu­de, essa von­ta­de, en­fim, de se pin­tar pin­tando ou­trem. Ne­nhum plano re­gu­lar, ne­nhum sis­tema para en­cer­rar o es­pí­ri­to; nada se­não o ca­pri­cho do pin­cel, de onde surge uma «mis­ce­lâ­nea de re­fle­xões, ane­do­tas e má­xi­mas lan­ça­das de­sor­de­na­da­mente so­bre o pa­pel, du­rante [vá­ri­os] anos, por volta de 1335», um jar­dim de im­pres­sões onde a erva da­ni­nha la­de­ava a flor ra­ra. O in­ci­pit, cé­le­bre, dá o tom deste pas­seio in­te­lec­tu­al:

«Ao sa­bor das mi­nhas ho­ras oci­o­sas (Tsu­re­zure naru mama ni), da ma­nhã à noi­te, di­ante da mi­nha es­cri­va­ni­nha, anoto sem de­síg­nio pre­ciso as ba­ga­te­las cujo re­flexo fu­gi­dio passa no meu es­pí­ri­to. Es­tra­nhas di­va­ga­ções!»

Ura­be, Kenkô. Les Heu­res oi­si­ves (As Ho­ras oci­o­sas) (Tsurezure-gusa), trad. do ja­po­nês por Char­les Gros­bois e To­miko Yoshi­da. Pa­ris: Gal­li­mard, col. «Con­nais­sance de l’O­ri­ent. Sé­rie ja­po­nai­se», 1987; re­ed. par­cial sob o tí­tulo Cahi­ers de l’er­mi­tage (Ca­der­nos do ere­mi­té­rio) (pref. Zéno Bi­a­nu), Pa­ris: Gal­li­mard, col. «Fo­lio Sa­ges­ses», 2022.

A Poética do inacabado

No co­ra­ção das Ho­ras oci­o­sas pulsa o sen­ti­mento pun­gente do efé­me­ro. Para o ho­mem mo­der­no, a fuga do tempo é, na mai­o­ria das ve­zes, fonte de an­gús­tia; para Kenkô, ela é a con­di­ção mesma da be­le­za. «É a sua im­per­ma­nên­cia que faz o va­lor deste mundo» (cap. VI­I), es­creve ele. Se a nossa exis­tên­cia de­vesse ser eter­na, a po­e­sia do mundo es­va­ne­cer-se-ia de ime­di­a­to. Desta fi­lo­so­fia da pre­ca­ri­e­dade de­corre uma es­té­tica toda ja­po­ne­sa, a do ina­ca­ba­do, que pre­fere à ple­ni­tude da lua o bri­lho ve­lado de um as­tro de­cli­nan­te; e à flor de­sa­bro­chada as pé­ta­las que o vento leva apres­sa­da­men­te, ape­sar de nós:

«Qual­quer que seja o ob­je­to, a sua per­fei­ção é um de­fei­to. Dei­xai as coi­sas ina­ca­ba­das, como es­tão, sem aper­fei­ço­ar: en­con­tra­rei ne­las in­te­resse e sen­tir-me-ei à von­ta­de. Dis­se­ram-mo: quando se cons­trói uma mo­rada im­pe­ri­al, é cos­tume dei­xar um lu­gar ina­ca­ba­do.»

Ura­be, Kenkô. Les Heu­res oi­si­ves (As Ho­ras oci­o­sas) (Tsurezure-gusa), trad. do ja­po­nês por Char­les Gros­bois e To­miko Yoshi­da. Pa­ris: Gal­li­mard, col. «Con­nais­sance de l’O­ri­ent. Sé­rie ja­po­nai­se», 1987; re­ed. par­cial sob o tí­tulo Cahi­ers de l’er­mi­tage (Ca­der­nos do ere­mi­té­rio) (pref. Zéno Bi­a­nu), Pa­ris: Gal­li­mard, col. «Fo­lio Sa­ges­ses», 2022.

Ao en­si­nar-nos que «o pe­sar pelo des­fo­lhar das flo­res e pelo de­clí­nio da lua» (cap. CXXX­VII) é mais to­cante do que o elo­gio do seu pleno de­sa­bro­char, Kenkô não nos ofe­rece ape­nas uma li­ção de poé­ti­ca; ofe­re­ce-nos, me­lhor ain­da, uma con­so­la­ção.

Mappemonde mettant en évidence la Roumanie et l’Italie.

Os Tristes e as Pônticas, ou Roma à beira do Mar Negro

Tra­du­zido do fran­cês

Era uma vez, sob o rei­nado de Au­gus­to, um ho­mem que po­dia jul­gar-se cu­mu­lado de bens: Pu­blius Ovi­dius Naso, dito Oví­dio. Po­eta em voga no belo sé­culo da po­e­sia la­ti­na, lu­sor amo­rum (can­tor dos amo­res), a sua pena brin­ca­lhona ha­via con­quis­tado Roma e a sua fa­ci­li­dade em fa­zer ver­sos era pro­di­gi­o­sa: «ten­tava es­cre­ver em pro­sa, mas as pa­la­vras vi­nham co­lo­car-se tão jus­ta­mente na me­di­da, que o que eu es­cre­via eram ver­sos». For­tu­na, nas­ci­men­to, ami­gos ilus­tres, uma casa con­tí­gua ao Ca­pi­tó­lio, nada fal­tava a este ca­va­leiro ro­mano que go­zava de uma vida mais se­gura e mais con­for­tá­vel do que nun­ca.

Con­tu­do, numa ma­nhã do ano 8 da nossa era, quando Roma des­per­tou, uma si­nis­tra no­tí­cia per­cor­reu as ru­as: o fi­lho que­rido das mu­sas, en­tão quin­qua­ge­ná­rio, aca­bava de par­tir sob es­colta im­pe­ri­al. Não para um re­tiro dou­rado nal­guma praia cle­men­te, mas para uma relegatio (re­si­dên­cia fi­xa)1A relegatio (re­si­dên­cia fi­xa), em­bora se as­se­me­lhando ao exilium (e­xí­li­o), dis­tin­gui­a-se ju­ri­di­ca­mente de­le: não acar­re­tava nem perda da ci­da­da­nia nem con­fisco dos bens. Oví­dio, a quem ti­nham feito mercê nes­tes dois pon­tos, ti­nha o cui­dado de pre­ci­sar que é por abuso que os seus con­tem­po­râ­neos o qua­li­fi­ca­vam de exi­la­do: quippe re­le­ga­tus, non exul, di­cor in illo (não se diz que eu seja exi­la­do, mas so­mente re­le­ga­do). Mas de que ser­via ob­ser­var uma dis­tin­ção que ele só fa­zia por ponto de hon­ra? Ele mesmo dela se li­ber­tou: a pa­tria fugi vic­tus et exul ego (eu ven­cido e fu­gi­ti­vo, ve­jo-me exi­lado da mi­nha pá­tri­a); exul eram (es­tava no exí­li­o). em To­mos2A ac­tual Cons­tança na Ro­mé­nia., burgo gla­cial no ex­tremo li­mite do im­pé­rio, nas mar­gens inós­pi­tas do Mar Ne­gro.3Ao sau­dar uma úl­tima vez o Ca­pi­tó­lio, o exi­lado pro­nun­ciou es­tes adeu­ses que Go­ethe fará seus no mo­mento da sua pró­pria par­tida da Ci­dade Eter­na: «Gran­des Deu­ses que ha­bi­tais este tem­plo au­gusto tão vi­zi­nho da mi­nha ca­sa, e que os meus olhos do­ra­vante não ve­rão mais; […] vós que te­nho de dei­xar, […] des­car­re­gai-me, su­pli­co-vos, do ódio de Cé­sar; é a única graça que vos peço ao par­tir. Di­zei a este ho­mem di­vino que erro me se­du­ziu, e fa­zei-lhe co­nhe­cer que a mi­nha falta nunca foi um crime».

O Mistério da desgraça

Qual foi a causa desta relegatio sem jul­ga­men­to, pela só von­tade de Au­gus­to, e que ra­zão teve este prín­cipe para pri­var Roma e a sua corte de tão grande po­eta para o con­fi­nar en­tre os Ge­tas? É o que se ig­nora e que se ig­no­rará sem­pre. Oví­dio evoca um car­men et er­ror (um po­ema e uma im­pru­dên­ci­a), mur­mu­rando enig­ma­ti­ca­men­te:

«Ah! porquê vi eu o que não de­via ver? Por­que se tor­na­ram os meus olhos cul­pa­dos? Por­que en­fim, pela mi­nha im­pru­dên­cia, co­nheci o que nunca de­via co­nhe­cer?»

Oví­dio. Les Élé­gies d’O­vide pen­dant son exil [t. I, Élé­gies des Tris­tes] (As Ele­gias de Oví­dio du­rante o seu exí­lio [t. I, Ele­gias dos Tris­tes]), trad. do la­tim por Jean Ma­rin de Ker­vil­lars. Pa­ris: d’Houry fils, 1723.

Se A Arte de Amar, pu­bli­cada uma dé­cada an­tes, foi o carmen ou o pre­texto ofi­ci­al, o error ou a falta ver­da­deira per­ma­nece um enigma se­lado no tú­mulo do po­e­ta:

«O crime de Oví­dio era in­con­tes­ta­vel­mente ter visto algo de ver­go­nhoso na fa­mí­lia de Oc­tá­vio […]. Os dou­tos não de­ci­di­ram se ti­nha visto Au­gusto com um jo­vem ra­paz […]; ou se ti­nha visto al­gum es­cu­deiro nos bra­ços da im­pe­ra­triz Lí­via, que este Au­gusto ha­via des­po­sado grá­vida de ou­tro; ou se ti­nha visto este im­pe­ra­dor Au­gusto ocu­pado com a sua fi­lha ou a sua ne­ta; ou en­fim se ti­nha visto este im­pe­ra­dor Au­gusto fa­zendo algo pi­or, torva tu­en­ti­bus hir­cis [sob os olha­res tor­vos dos bo­des].»

Vol­tai­re. Œu­vres com­plè­tes de Vol­tai­re, vol. 45B, […] D’O­vi­de, de So­crate […] (O­bras com­ple­tas de Vol­tai­re, vol. 45B, […] De Oví­dio, de Só­cra­tes […]). Ox­ford: Vol­taire Foun­da­ti­on, 2010.

Es­que­ça­mos por­tanto as hi­pó­te­ses tão nu­me­ro­sas quanto es­tra­nhas da­que­les que que­rem a qual­quer preço adi­vi­nhar um se­gredo de dois mi­lé­ni­os. Basta sa­ber que, nas an­gús­tias do exí­lio, nos so­lu­ços do iso­la­men­to, Oví­dio não en­con­trou ou­tro re­curso se­não a sua po­e­sia, e que a em­pre­gou in­tei­ra­mente a aman­sar um im­pe­ra­dor de quem ha­via atraído o ran­cor. «Os Deu­ses dei­xam-se por ve­zes do­brar», di­zia ele a si mes­mo. Daí nas­ce­ram os Tristes (Tristia)4For­mas re­jei­ta­das:
Les Cinq Li­vres des Tris­tes (Os Cinco Li­vros dos Tris­tes).
Tris­tium li­bri quin­que (V).
De Tris­ti­bus li­bri quin­que (V).
e as Pônticas (Epis­tulæ ex Ponto)5For­mas re­jei­ta­das:
Let­tres du Pont (Car­tas do Pon­to).
Élé­gies écri­tes dans la pro­vince de Pont (E­le­gias es­cri­tas na pro­vín­cia do Pon­to).
Les Qua­tre Li­vres d’épî­tres écri­tes dans la pro­vince de Pont (Os Qua­tro Li­vros de epís­to­las es­cri­tas na pro­vín­cia do Pon­to).
Pon­ticæ epis­tolæ.
De Ponto li­bri qua­tuor (IV).
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Crónica de um inverno eterno: O Drama de Tomos

As ele­gias de Oví­dio du­rante o seu exí­lio são o diá­rio de um ho­mem per­dido longe dos seus, longe de uma ci­vi­li­za­ção de que foi ou­trora o mais amá­vel re­pre­sen­tan­te; uma longa de­plo­ra­ção di­ri­gida à sua es­po­sa, aos seus ami­gos que fi­ca­ram em Roma e a um po­der im­pla­cá­vel de quem es­pera em vão a cle­mên­cia. To­mos apre­sen­ta-se aí sob o as­pecto de uma «terra cheia de amar­gura», sem­pre ba­tida pe­los ven­tos e pelo gra­nizo de um in­verno eter­no, e onde o pró­prio vi­nho, «pe­tri­fi­cado pelo frio», se so­li­di­fica em gelo que é pre­ciso cor­tar à ma­cha­da­da. O po­eta sen­te-se aí um es­tran­geiro ab­so­lu­to; um pri­si­o­neiro de­sa­pren­dendo a fa­lar la­tim no meio de pa­la­vras bár­ba­ras e de hor­rí­veis gri­tos de Ge­tas:

«eles con­ver­sam uns com os ou­tros numa lín­gua que lhes é co­mum; mas eu, não posso fa­zer-me en­ten­der se­não por ges­tos e si­nais; passo aqui por bár­ba­ro, e [es­tes] Ge­tas im­per­ti­nen­tes ri­em-se das pa­la­vras la­ti­nas.»

Oví­dio. Les Élé­gies d’O­vide pen­dant son exil [t. I, Élé­gies des Tris­tes] (As Ele­gias de Oví­dio du­rante o seu exí­lio [t. I, Ele­gias dos Tris­tes]), trad. do la­tim por Jean Ma­rin de Ker­vil­lars. Pa­ris: d’Houry fils, 1723.

Face à adversidade

Onde foi Oví­dio bus­car a co­ra­gem ne­ces­sá­ria para su­por­tar uma ad­ver­si­dade tão cru­el? Na es­cri­ta:

«[Se me] per­gun­tar­des so­bre o que faço aqui, dir-vos-ei que me ocupo com es­tu­dos as­saz pouco úteis em apa­rên­cia, e que não obs­tante têm a sua uti­li­dade para mim; e quando não ser­vis­sem se­não para me fa­zer es­que­cer as mi­nhas des­gra­ças, não se­ria uma me­dío­cre van­ta­gem: de­ma­si­ado fe­liz se, cul­ti­vando um campo tão es­té­ril, dele re­tiro ao me­nos al­gum fru­to.»

Oví­dio. Les Élé­gies d’O­vide pen­dant son exil, t. II, Élé­gies pon­ti­ques (As Ele­gias de Oví­dio du­rante o seu exí­lio, t. II, Ele­gias pôn­ti­cas), trad. do la­tim por Jean Ma­rin de Ker­vil­lars. Pa­ris: d’Houry, 1726.

De res­to, o an­tigo dândi ro­mano não de­sa­pa­re­ceu in­tei­ra­men­te: ele­gân­cia, tra­ços re­bus­ca­dos, com­pa­ra­ções mais en­ge­nho­sas que só­li­das per­sis­tem, por ve­zes até ao ex­ces­so. Quin­ti­li­ano já o jul­gava me­nos ocu­pado das suas pró­prias des­gra­ças, que ama­tor in­ge­nii sui (a­mante do seu pró­prio gé­ni­o). Se­gundo Sé­neca o pai, Oví­dio co­nhe­cia «o que ha­via de exu­be­rante nos seus ver­sos», mas aco­mo­da­va-se a is­so: «Di­zia que um rosto era por ve­zes tor­nado bem mais bo­nito por um si­nal de be­leza». Esta cons­tân­cia em dar al­guma volta aos seus pen­sa­men­tos, al­gum «si­nal de be­leza», à ma­neira fran­cesa — «dir-se-ia quase que nas­ceu en­tre nós», nota o tra­du­tor Jean Ma­rin de Ker­vil­lars — é a marca úl­tima da sua per­so­na­li­da­de, a re­cusa con­fes­sada de dei­xar o afas­ta­mento da ca­pi­tal ani­qui­lar o ar­tis­ta. E de­pois de ter tan­tas ve­zes des­crito este afas­ta­mento como uma es­pé­cie de mor­te, acaba por en­con­trar Roma à beira do Mar Ne­gro, con­cluin­do: «o país onde o des­tino me co­lo­cou deve fa­zer-me as ve­zes de Ro­ma. A mi­nha musa in­for­tu­nada con­ten­ta-se com este te­a­tro […]: tal é o bel-pra­zer de um Deus po­de­ro­so.»6Mais re­sig­nado que re­so­lu­to, não foi ao ponto de ins­cre­ver no lin­tel da sua por­ta, como fará Hu­go, EXI­LIUM VITA EST (O EXÍ­LIO É A VIDA ou A VIDA É UM EXÍ­LI­O).

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Dizer o indizível: Hi­roshi­ma: flo­res de ve­rão de Hara Tamiki

Tra­du­zido do fran­cês

Há acon­te­ci­men­tos na his­tó­ria dos ho­mens que pa­re­cem mar­car o li­mite do que a lin­gua­gem pode ex­pri­mir. O abismo abre-se, e as pa­la­vras, ir­ri­só­ri­as, pa­re­cem re­cuar pe­rante o hor­ror. Hi­roshima é um des­ses abis­mos. No en­tan­to, face ao in­di­zí­vel, al­guns sen­ti­ram o de­ver im­pe­ri­oso de tes­te­mu­nhar, não para ex­pli­car, mas para não dei­xar o si­lên­cio com­ple­tar a obra da des­trui­ção. Na pri­meira li­nha des­ses vi­gi­lan­tes en­con­tra-se Hara Ta­miki (1905-1951), so­bre­vi­ven­te, cu­jos re­la­tos reu­ni­dos sob o tí­tulo Hi­roshi­ma: flo­res de ve­rão cons­ti­tuem um dos atos fun­da­do­res da­quilo que a crí­tica de­no­mi­nará a «li­te­ra­tura da bomba ató­mi­ca» (gen­baku bun­gaku)1A «li­te­ra­tura da bomba ató­mi­ca» de­signa as obras nas­ci­das do trau­ma­tismo de 1945. Le­vado por so­bre­vi­ven­tes como Hara Ta­miki e Ôta Yô­ko, este gé­nero foi du­rante muito tempo «jul­gado me­nor, lo­cal, do­cu­men­tal» pe­los meios li­te­rá­ri­os. A sua força re­side pre­ci­sa­mente na sua ten­ta­tiva de in­ter­ro­gar «os li­mi­tes da lin­gua­gem, os seus aca­sos, as suas fal­tas» face ao hor­ror e de se es­for­çar ao mesmo tempo por col­ma­tá-las, como su­bli­nha Cathe­rine Pin­guet.
For­mas re­jei­ta­das:
Li­te­ra­tura do áto­mo.
Gem­baku bun­gaku.
. Tri­lo­gia «de um mundo que não acaba de ar­der»2Fo­rest, Phi­lip­pe, «Quel­ques fleurs pour Hara Ta­mi­ki» (Al­gu­mas flo­res para Hara Ta­mi­ki), art. cit., a obra — com­posta por Pre­lú­dio à des­trui­ção (Kai­metsu no jokyoku), Flo­res de ve­rão (Natsu no hana) e Ruínas (Haikyo kara) — re­la­ta, em três tem­pos, o an­tes, o du­rante e o de­pois.

Uma escrita da deflagração

Para Gala Ma­ria Fol­la­co, o es­tilo de Hara não é o de uma es­crita do­mi­na­da: é uma « des­cida à psi­que frá­gil de um ho­mem de­ses­pe­rado » con­fron­tado com pai­sa­gens ter­ri­vel­mente des­fei­tas, quase ir­re­co­nhe­cí­veis, onde lhe pa­rece im­pos­sí­vel re­en­con­trar os ves­tí­gios da sua vida tal como era al­guns ins­tan­tes an­tes. A sua es­crita des­lo­ca­da, que mer­gu­lha o lei­tor na in­qui­e­ta­ção e na de­so­ri­en­ta­ção, tem como ce­ná­rio Hi­roshima ela pró­pria em far­ra­pos, « de­sa­pa­re­cida sem dei­xar rasto — se­não uma es­pé­cie de ca­mada plana de es­com­bros, de cin­zas, de coi­sas tor­ci­das, re­ben­ta­das, roí­das » para re­to­mar as pa­la­vras de Ro­bert Guil­lain, o pri­meiro fran­cês no lo­cal. É so­bre esta tela de de­so­la­ção que Hara pro­jeta ora frag­men­tos de exis­tên­cias in­ter­rom­pi­das, ora es­ti­lha­ços de me­mó­ria vindo col­ma­tar os va­zios de uma re­a­li­dade di­la­ce­ra­da.

Esta des­cons­tru­ção atinge o seu pa­ro­xismo nas in­ser­ções poé­ti­cas, onde Hara re­corre a uma forma par­ti­cu­lar do ja­po­nês — os ka­ta­ka­nas ha­bi­tu­al­mente re­ser­va­dos às pa­la­vras es­tran­gei­ras —, como se a lín­gua usual se ti­vesse tor­nado inep­ta:

«Des­tro­ços cin­ti­lan­tes
/ es­ti­ram-se numa vasta pai­sa­gem
Cin­zas cla­ras
Quem são es­tes cor­pos quei­ma­dos com car­nes vi­vas?
Ritmo es­tra­nho dos cor­pos de ho­mens mor­tos
Tudo isto exis­tiu?
Tudo isto pôde exis­tir?
Um ins­tante e resta um mundo es­fo­lado»

Ha­ra, Ta­mi­ki, Hi­roshima : fleurs d’été : ré­cits (Hi­roshi­ma: flo­res de ve­rão: re­la­tos), trad. do ja­po­nês por Bri­gitte Al­li­oux, Ka­rine Ches­neau e Ro­se-Ma­rie Ma­ki­no-Fayol­le, Ar­les: Ac­tes Sud, col. «Ba­bel», 2007.

En­quanto Ha­ra, no in­te­rior da for­na­lha, so­fria este es­pe­tá­culo dan­tes­co, os in­te­lec­tu­ais es­tu­pe­fac­tos, no ou­tro ex­tremo do mun­do, ten­ta­vam pen­sar o acon­te­ci­men­to. A 8 de agosto de 1945, Al­bert Ca­mus es­cre­via em Combat: «a ci­vi­li­za­ção me­câ­nica acaba de atin­gir o seu úl­timo grau de sel­va­ja­ria. Vai ser pre­ciso es­co­lher, num fu­turo mais ou me­nos pró­xi­mo, en­tre o sui­cí­dio co­le­tivo ou a uti­li­za­ção in­te­li­gente das con­quis­tas ci­en­tí­fi­cas. En­tre­tan­to, é per­mi­tido pen­sar que há al­guma in­de­cên­cia em ce­le­brar as­sim uma des­co­berta que se põe pri­meiro ao ser­viço da mais for­mi­dá­vel raiva de des­trui­ção de que o ho­mem deu pro­vas»3O edi­to­rial de Ca­mus foi pu­bli­cado na pri­meira pá­gina do jor­nal Combat ape­nas dois dias de­pois do bom­bar­de­a­mento e an­tes do de Na­ga­sa­ki. Ofe­rece o exato con­trapé da re­a­ção de grande parte da im­pren­sa, tal como Le Monde que ti­tu­lava no mesmo dia so­bre «Uma re­vo­lu­ção ci­en­tí­fi­ca». Ao ir con­tra os en­tu­si­as­mos de épo­ca, Ca­mus im­põe-se como uma das mais pron­tas e das mais lú­ci­das in­te­li­gên­cias no mo­mento do ad­vento da era nu­cle­ar.. Hara não fi­lo­so­fa, mos­tra; e o que mos­tra é pre­ci­sa­mente esta «raiva de des­trui­ção» cra­vada como uma lâ­mina na pró­pria carne dos ho­mens.

Algumas flores sobre a mais vasta das sepulturas

O re­lato cen­tral, Flo­res de ve­rão, abre-se so­bre um luto ín­ti­mo: «Saí à ci­dade e com­prei flo­res, pois ti­nha de­ci­dido ir à se­pul­tura da mi­nha mu­lher». Para Ha­ra, o fim do mundo já ti­nha co­me­çado um ano an­tes. Ti­nha per­dido a sua mu­lher, Sa­dae — a pes­soa mais que­rida do seu co­ra­ção — e, com ela, as mais pu­ras de­lí­cias desta vi­da. A ca­tás­trofe de 6 de agosto de 1945 não é por­tanto uma ru­tura sur­gida do na­da, mas a am­pli­fi­ca­ção mons­tru­osa de um drama pes­so­al, que se mis­tura com o drama co­le­tivo das ví­ti­mas da bomba ató­mica e acaba por se tor­nar pa­ra­do­xal­mente uma ra­zão de ser, uma ur­gên­cia de di­zer. «“Devo dei­xar tudo isto por es­cri­to”, disse para mim mesmo», dan­do-se a co­ra­gem de vi­ver ainda al­guns anos. A sua es­crita já não é ape­nas um la­mento no meio das ruí­nas; trans­for­ma-se num me­mo­rial de Hi­roshi­ma, al­gu­mas flo­res de­po­si­ta­das para a eter­ni­dade so­bre a mais vasta das se­pul­tu­ras; num ato de re­sis­tên­cia tam­bém con­tra os si­lên­ci­os, se­jam eles im­pos­tos pela cen­sura das for­ças de ocu­pa­ção ame­ri­ca­nas4Após a ca­pi­tu­la­ção de 1945, as au­to­ri­da­des de ocu­pa­ção ame­ri­ca­nas im­ple­men­ta­ram um Press Code que proi­biu du­rante vá­rios anos a di­fu­são de in­for­ma­ções e de tes­te­mu­nhos de­ma­si­ado crus so­bre os efei­tos dos bom­bar­de­a­men­tos, atra­sando as­sim a pu­bli­ca­ção de nu­me­ro­sas obras, in­cluindo as de Ha­ra. «So­frer em si­lên­cio, por­tanto», re­sume a psi­có­loga Nayla Chi­diac na sua obra L’É­cri­ture qui gué­rit (A es­crita que cu­ra), que con­sa­gra um ca­pí­tulo in­teiro a Ha­ra., ou nas­ci­dos da dis­cri­mi­na­ção con­tra os «a­to­mi­za­dos» (hibakusha), cu­jos es­tig­mas en­gen­dra­vam medo e re­jei­ção.

Silêncio dos mortos, silêncio de Deus

Mas esta mis­são que o man­ti­nha vivo aca­bou por es­ma­gá-lo. Em 1951, as­sina uma pa­la­vra de adeus, as­som­brado pelo es­pec­tro de uma nova Hi­roshima com o de­sen­ca­dear da guerra da Co­reia: «É tempo agora de de­sa­pa­re­cer no in­vi­sí­vel, na eter­ni­dade para além». Pouco de­pois, ati­ra-se sob um com­boio. O seu gesto úl­ti­mo, como es­cre­verá o pré­mio No­bel Ôé Ken­za­burô, foi um úl­timo grito de pro­testo «con­tra a es­tu­pi­dez cega do gé­nero hu­mano».

Quando as vo­zes das tes­te­mu­nhas se ca­lam, a me­mó­ria re­fu­gi­a-se nos ob­je­tos que o crime dei­xou para trás. Dé­ca­das mais tar­de, é a esta me­mó­ria ma­te­rial que se con­fronta o pa­dre Mi­chel Quoist du­rante a sua vi­sita ao mu­seu da bomba ató­mi­ca. É atin­gido pela vi­são «de re­ló­gi­os, de pên­du­los, de des­per­ta­do­res», os seus pon­tei­ros para sem­pre fi­xos nas 8h15: «O tempo está sus­penso». Esta ima­gem im­pres­si­o­nante é tal­vez a mais justa me­tá­fora do es­forço de Hara para cris­ta­li­zar o ins­tante fa­tí­di­co. É esta mesma ima­gem que ins­pi­rará a Quoist um po­ema la­pi­dar em per­feita res­so­nân­cia com Hi­roshi­ma: flo­res de ve­rão:

«Povo in­ter­rom­pi­do, apa­gado
/ po­eira
/ som­bra
/ noite
/ nada
Si­lên­cio dos mor­tos
Si­lên­cio de Deus

Por­que vos ca­lais, os mor­tos? Quero ou­vir a vossa voz!
Gritem!
Uivem!
Di­gam-nos que é in­jus­to!
Di­gam-nos que so­mos lou­cos! […]
FAZ NOITE SO­BRE HI­ROSHIMA»

Quoist, Mi­chel, À cœur ou­vert (De co­ra­ção aber­to), Pa­ris: Les Édi­ti­ons ou­vriè­res, 1981.

Mappemonde mettant en évidence le Japon.

A Aurora do Japão Medieval nas suas Epopeias

Tra­du­zido do fran­cês

O pa­cí­fico pe­ríodo de Heian (794-1185) ter­mi­nou numa con­fla­gra­ção. Ao tér­mino de ba­ta­lhas de rara vi­o­lên­cia, duas ca­sas ri­vais, os Taïra e os Mi­na­mo­to, afas­ta­ram, uma após a ou­tra, a aris­to­cra­cia de cor­te, que não dis­pu­nha nem de um exér­cito nem de uma po­lí­cia su­fi­ci­en­tes, e pro­vo­ca­ram o ad­vento do re­gime feu­dal. Co­meça en­tão a Idade Mé­dia ja­po­ne­sa. Este pe­ríodo de con­vul­sões foi tal que «se­ria pre­ciso pro­cu­rar na Idade Mé­dia alemã para en­con­trar uma con­fu­são se­me­lhante». Ao re­fi­na­mento da li­te­ra­tura fe­mi­nina de Heian su­ce­de­ram, desde en­tão, re­la­tos vi­ris, cheios de «assassínios», de «ardis», de «fei­tos de ar­mas ma­ra­vi­lho­sos» e de «vin­gan­ças lon­ga­mente pre­pa­ra­das» — «fonte de em­ba­raço e de per­tur­ba­ção para os his­to­ri­a­do­res».

O Rosário na Mão e a Espada à Cintura

Desta agi­ta­ção nas­ce­ram os «di­tos guer­rei­ros» (gunki mo­no­ga­tari), que se si­tuam no cru­za­mento da cró­nica his­tó­ri­ca, da epo­peia na­ci­o­nal e de uma pro­funda me­di­ta­ção bú­di­ca. A sua fun­ção era aliás me­nos li­te­rá­ria, no sen­tido em que o en­ten­de­mos, do que me­mo­rial e es­pi­ri­tu­al: tra­ta­va-se an­tes de mais «de apa­zi­guar […] as al­mas dos guer­rei­ros que pe­re­ce­ram nos com­ba­tes» e, para os so­bre­vi­ven­tes, «de pro­cu­rar um sen­tido aos acon­te­ci­men­tos caó­ti­cos que pu­se­ram fim à or­dem an­tiga». Esta fun­ção ca­bia aos «bon­zos de biwa» (biwa hôshi ou biwa bôzu), ae­dos ge­ral­mente ce­gos. Se­me­lhan­tes aos nos­sos tro­va­do­res de ou­tro­ra, per­cor­riam o país, de­cla­mando com voz can­tante os gran­des fei­tos do pas­sa­do. Ves­ti­dos com um há­bito mo­na­cal, sem dú­vida para se co­lo­ca­rem sob a pro­te­ção dos tem­plos e dos mos­tei­ros, acom­pa­nha­vam-se do seu alaúde de qua­tro cor­das, o biwa1«Nas­cido no reino da Pér­sia e suas re­giões li­mí­tro­fes, o biwa di­fun­diu-se na Ásia ori­en­tal ao longo da Rota da Se­da. Aper­fei­ço­ado na Chi­na, che­gou ao ar­qui­pé­lago ja­po­nês por volta do sé­culo VIII». Hyôdô, Hi­ro­mi, «Les moi­nes jou­eurs de biwa (biwa hôshi) et Le Dit des Heike» («Os Mon­ges To­ca­do­res de biwa (biwa hôshi) e O Dito dos Heiké») em Bris­set, Clai­re-A­ki­ko, Bro­tons, Ar­naud e Stru­ve, Da­niel (dir.), op. cit., cu­jos acor­des pon­tu­a­vam a me­lan­co­lia do re­la­to.

No co­ra­ção do re­per­tó­rio que es­tes ar­tis­tas trans­mi­tiam de mes­tre a dis­cí­pu­lo, uma tri­lo­gia fun­da­men­tal re­traça as lu­tas fra­tri­ci­das que fi­ze­ram bas­cu­lar o ar­qui­pé­lago numa nova era: O Dito de Hô­gen (Hô­gen mo­no­ga­tari)2For­mas re­jei­ta­das:
Ré­cit des trou­bles de l’ère Ho­gen (Re­lato dos Dis­túr­bios da Era Hô­gen).
La Ch­ro­ni­que des Ho­gen (A Cró­nica dos Hô­gen).
Ré­cit de l’ère Hô­gen (Re­lato da Era Hô­gen).
His­toire de la guerre de l’é­po­que Hô­gen (His­tó­ria da Guerra da Época Hô­gen).
Hôghen mo­no­ga­tari.
Hôghenn mo­no­ga­tari.
, O Dito de Heiji (Heiji mo­no­ga­tari)3For­mas re­jei­ta­das:
Épo­pée de la ré­bel­lion de Heiji (Epo­peia da Re­be­lião de Heiji).
La Ch­ro­ni­que des Heigi (A Cró­nica dos Heigi).
Ré­cit de l’ère Heiji (Re­lato da Era Heiji).
Ré­cits de la guerre de l’ère Heiji (Re­la­tos da Guerra da Era Heiji).
Heïdji mo­no­ga­tari.
Heizi mo­no­ga­tari.
, e o mais ilus­tre de to­dos, O Dito dos Heiké (Heiké mo­no­ga­tari)4For­mas re­jei­ta­das:
Le Dit des Heikke (O Dito dos Heikke).
L’A­ven­ture d’Heike (A Aven­tura de Heike).
His­toire des Heike (His­tó­ria dos Heike).
Con­tes du Heike (Con­tos do Heike).
Con­tes des Heike (Con­tos dos Heike).
La Ch­ro­ni­que des Heiké (A Cró­nica dos Heiké).
La Ch­ro­ni­que de Heiké (A Cró­nica de Heiké).
Ch­ro­ni­ques du clan Heike (Cró­ni­cas do Clã Heike).
La Geste de la mai­son des Héï (A Gesta da Casa dos Héï).
Geste de la fa­mille des Hei (Gesta da Fa­mí­lia dos Hei).
His­toire de la fa­mille des Hei (His­tó­ria da Fa­mí­lia dos Hei).
His­toire de la fa­mille Heiké (His­tó­ria da Fa­mí­lia Heiké).
His­toire de la mai­son des Taira (His­tó­ria da Casa dos Taira).
His­toire de la fa­mille des Taïra (His­tó­ria da Fa­mí­lia dos Taïra).
Ré­cit de l’his­toire des Taira (Re­lato da His­tó­ria dos Taira).
Ro­man des Taira (Ro­mance dos Taira).
La Geste des Taïra (A Gesta dos Taïra).
Feike no mo­no­ga­tari.
. Os dois pri­mei­ros, se po­dem pa­re­cer pro­sai­cos ao des­cre­ve­rem como os Taïra e os Mi­na­moto se in­si­nuam pouco a pouco no po­der mi­li­tar até ad­qui­ri­rem uma in­fluên­cia de­ci­siva so­bre os as­sun­tos da cor­te, não dei­xam de pre­pa­rar o drama vin­douro e já en­cer­ram esta «sen­si­bi­li­dade ao efé­me­ro» (mono no aware) que en­con­trará no Dito dos Heiké a sua ex­pres­são mais aca­ba­da:

«O mundo onde vi­ve­mos
Não tem mais exis­tên­cia
Que raio de lua
Que se re­flete na água
Re­co­lhida no oco da mão.»

Le Dit de Hô­gen ; Le Dit de Heiji (O Dito de Hô­gen; O Dito de Heiji), trad. do ja­po­nês por René Si­ef­fert, Pa­ris: Pu­bli­ca­ti­ons ori­en­ta­lis­tes de Fran­ce, 1976; re­ed. La­gras­se: Ver­di­er, col. «Ver­dier po­che», 2007.

A Impermanência como Destino

Obra mo­nu­men­tal, ver­da­deira Eneida das lu­tas in­tes­ti­nas e das guer­ras en­car­ni­ça­das que di­la­ce­ra­ram as duas ca­sas, cul­mi­nando com a ba­ta­lha de Dan-no-ura (25 de abril de 1185), O Dito dos Heiké afas­ta-se no en­tanto ra­di­cal­mente da tra­di­ção oci­den­tal. Em vez de abrir, à ma­neira de Vir­gí­lio, com os arma vi­rum­que (as ar­mas e o ho­mem), a cró­nica ja­po­nesa lem­bra desde a sua pri­meira li­nha «a im­per­ma­nên­cia de to­das as coi­sas»: «O or­gu­lho­so, cer­ta­men­te, não du­ra, nem mais nem me­nos igual ao so­nho de uma noite de pri­ma­vera». As per­so­na­gens, gran­des ou hu­mil­des, são to­das ar­ras­ta­das pelo mesmo tur­bi­lhão, ilus­trando à sa­ci­e­dade que, se­gundo a fór­mula de Bos­su­et:

«Virá o tempo em que este ho­mem que vos pa­re­cia tão grande já não se­rá, em que será como a cri­ança que ainda está por nas­cer, em que não será na­da. […] Vim ape­nas para fa­zer nú­me­ro, ainda as­sim não ha­via ne­ces­si­dade de mim; […] quando olho de per­to, pa­re­ce-me que é um so­nho ver-me aqui, e que tudo o que vejo não são se­não vãos si­mu­la­cros: Præ­te­rit enim fi­gura hu­jus mundi (Pois pas­sa, este mundo tal como o ve­mos)51 Cor 7,31 (A Bí­blia: Tra­du­ção Ofi­cial Li­túr­gica).».

Bos­su­et, Jac­ques Bé­nig­ne, Œu­vres com­plè­tes (Obras Com­ple­tas), t. IV, Pa­ris: Lefè­vre; Fir­min Di­dot frè­res, 1836.

As­sim, O Dito dos Heiké as­se­me­lha-se a uma con­tí­nua pre­ga­ção, onde to­das as vi­cis­si­tu­des da vida dos he­róis ser­vem para ilus­trar esta lei da im­per­ma­nên­cia (mujô) e a vai­dade das gló­rias hu­ma­nas. O caso de Taïra no Ta­da­nori (1144-1184) é a este res­peito exem­plar. Sur­pre­en­dido pelo ini­mi­go, do­mina o seu ad­ver­sá­rio, mas um qual­quer ser­vi­dor deste in­ter­vém e cor­ta-lhe o braço di­reito rente ao co­to­ve­lo. Sa­bendo che­gado o seu fim, Ta­da­nori vol­ta-se para oeste e in­voca com voz fir­me, por dez ve­zes, o Buda an­tes de ser de­ca­pi­ta­do. Preso à sua al­ja­va, en­con­tra-se este po­ema de adeus:

«Ar­ras­tado pe­las tre­vas
Alo­jar-me-ei sob
Os ra­mos de uma ár­vo­re.
Ape­nas as flo­res
Me aco­lhe[­rã]o esta noi­te.»

Hoff­mann, Yo­el, Poè­mes d’a­dieu ja­po­nais : antho­lo­gie com­men­tée de poè­mes écrits au seuil de la mort (Po­e­mas de Adeus Ja­po­ne­ses: An­to­lo­gia Co­men­tada de Po­e­mas Es­cri­tos no Li­miar da Morte), trad. do in­glês por Agnès Ro­zen­blum, Ma­la­koff: A. Co­lin, 2023.

Uma Posteridade em Meios-tons

Esta sen­si­bi­li­dade bú­di­ca, que im­pregna até as ce­nas mais san­gren­tas, não basta no en­tanto sem­pre para ele­var uma nar­ra­ção que pode pa­re­cer len­ta, re­gu­lar, uni­forme aos es­pí­ri­tos for­ma­dos na es­té­tica oci­den­tal. Se­me­lhante ao som do sino de Gi­on, a mar­cha dos di­tos é re­gu­lar, de­ma­si­ado re­gu­lar mes­mo, e um tanto mo­nó­to­na. La­mento que re­la­tos tão ilus­tres não te­nham en­con­trado um po­eta igual­mente ilus­tre que os ti­vesse fi­xado para sem­pre; que lhes te­nha fal­tado um Ho­mero que lhes ti­vesse dado uma va­ri­e­da­de, uma fle­xi­bi­li­dade eter­na­mente ad­mi­ra­das.

Como nota Ge­or­ges Bous­quet, os he­róis ho­mé­ri­cos têm fre­quen­te­mente «ale­grias ou fra­que­zas es­tra­nhas que nos fa­zem to­car com o dedo a sua hu­ma­ni­da­de; os de Taïra não ces­sam ja­mais de ser con­ven­ci­o­nais e frios». En­quanto o in­gé­nuo con­ta­dor grego deixa sem­pre trans­pa­re­cer um vago e fino sor­riso por de­trás das pa­la­vras, «o rap­sodo ja­po­nês nunca aban­dona o tom épico e o porte em­pro­ado». Onde «res­soa como uma fan­farra a ex­pan­são ale­gre do tro­va­dor, ou­ve-se aqui ape­nas o acento me­lan­có­lico do bu­dista de­so­la­do: “O ho­mem va­lo­roso [tam­bém ele] acaba por des­mo­ro­nar-se nem mais nem me­nos que po­eira ao ven­to”».

Mappemonde mettant en évidence le Vietnam.

O Kim-Vân-Kiều, ou a alma vietnamita revelada

Tra­du­zido do fran­cês

Exis­tem obras que tra­zem em si os gos­tos e as as­pi­ra­ções de uma na­ção in­tei­ra, «desde o con­du­tor de ri­quexó até ao mais alto man­da­rim, desde a ven­de­dora am­bu­lante até à mais ilus­tre dama do mundo». Elas per­ma­ne­cem eter­na­mente jo­vens e veem su­ce­der-se no­vas ge­ra­ções de ad­mi­ra­do­res. Tal é o caso do Kim-Vân-Kiều1For­mas re­jei­ta­das:
Kim, Ven, Kièou.
Le Conte de Kiêu (O Conto de Kiêu).
L’His­toire de Kieu (A His­tó­ria de Kieu).
Le Ro­man de Kiều (O Ro­mance de Kiều).
Truyện Kiều.
His­toire de Thuy-Kiêu (His­tó­ria de Thuy-Kiêu).
Truyên Thuy-Kiêu.
L’His­toire de Kim Vân Kiều (A His­tó­ria de Kim Vân Kiều).
Kim Vân Kiều truyện.
Nou­velle His­toire de Kim, Vân et Kiều (Nova His­tó­ria de Kim, Vân e Kiều).
Kim Vân Kiều tân-truyện.
La Nou­velle Voix des cœurs bri­sés (A Nova Voz dos co­ra­ções par­ti­dos).
Nou­veau Chant du des­tin de ma­lheur (Novo Canto do des­tino de des­graça).
Nou­ve­aux Ac­cents de dou­leurs (No­vos Acen­tos de do­res).
Nou­veau Chant d’une des­ti­née ma­lheu­reuse (Novo Canto de um des­tino in­fe­liz).
Nou­veau Chant de souf­france (Novo Canto de so­fri­mento).
Nou­velle Voix des en­trail­les dé­chi­rées (Nova Voz das en­tra­nhas di­la­ce­ra­das).
Nou­ve­aux Ac­cents de la dou­leur (No­vos Acen­tos da dor).
Nou­velle Ver­sion des en­trail­les bri­sées (Nova Ver­são das en­tra­nhas par­ti­das).
Le Cœur bri­sé, nou­velle ver­sion (O Co­ra­ção par­ti­do, nova ver­são).
Đoạn-trường tân-thanh.
, este po­ema de mais de três mil ver­sos que mos­tram a alma vi­et­na­mita em toda a sua de­li­ca­de­za, pu­reza e ab­ne­ga­ção:

«É pre­ciso sus­pen­der a res­pi­ra­ção, é pre­ciso ca­mi­nhar com pre­cau­ção para es­tar em con­di­ções de cap­tar a be­leza do texto [tan­to] ele é gra­ci­oso (dịu dàng), for­moso (thuỳ mị), gran­di­oso (tráng lệ), es­plên­dido (huy hoàng).»

Du­rand, Mau­rice (ed.), Mé­lan­ges sur Nguyễn Du (Mis­ce­lâ­neas so­bre Nguyễn Du), Pa­ris: École fran­çaise d’Ex­trê­me-O­ri­ent, 1966.

O au­tor, Nguyễn Du (1765-1820)2For­mas re­jei­ta­das:
Nguyên Zou.
Nguyên-Zu.
Hguyen-Du.
Não con­fun­dir com:
Nguyễn Dữ (sé­culo XVI), cujo Vasta Com­pi­la­ção de len­das ma­ra­vi­lho­sas é uma crí­tica do seu tempo sob o véu do fan­tás­ti­co.
, dei­xou a re­pu­ta­ção de um ho­mem me­lan­có­lico e ta­ci­tur­no, cujo mu­tismo obs­ti­nado lhe va­leu esta re­pre­en­são do im­pe­ra­dor: «É pre­ciso que, nos con­se­lhos, fa­leis e deis a vossa opi­nião. Por que vos en­cer­rar­des as­sim no si­lên­cio e nunca res­pon­der­des se­não por sim ou por não?» Man­da­rim con­tra a sua von­ta­de, o seu co­ra­ção as­pi­rava ape­nas à qui­e­tude das suas mon­ta­nhas na­tais. Che­gou a amal­di­çoar esse ta­lento mesmo que, ele­van­do-o aos mais al­tos car­gos, o afas­tava de si pró­prio, ao ponto de fa­zer disso a mo­ral fi­nal da sua obra-pri­ma: «Que aque­les que têm ta­lento não se glo­ri­fi­quem por­tanto do seu ta­len­to! A pa­la­vra “tài” [ta­len­to] rima com a pa­la­vra “tai” [des­gra­ça]». Igual a si mes­mo, re­cu­sou qual­quer tra­ta­mento du­rante a do­ença que lhe foi fa­tal e, ao sa­ber que o seu corpo se ge­la­va, aco­lheu a no­tí­cia com um sus­piro de alí­vio. «Bem!», mur­mu­rou, e esta pa­la­vra foi a sua úl­ti­ma.

A Epopeia da dor

O po­ema re­trata o des­tino trá­gico de Kiều, jo­vem de be­leza e ta­lento in­com­pa­rá­veis. Quando um fu­turo ra­di­ante lhe pa­rece pro­me­tido junto do seu pri­meiro amor, Kim, a fa­ta­li­dade bate à sua por­ta: para sal­var o pai e o ir­mão de uma acu­sa­ção iní­qua, ela deve ven­der-se. En­tão, co­meça para ela um pé­ri­plo de quinze anos, du­rante os quais será su­ces­si­va­mente cri­a­da, con­cu­bina e pros­ti­tu­ta, fu­gindo de um in­for­tú­nio para en­con­trar ape­nas ou­tro pi­or. Con­tu­do, tal como o ló­tus que flo­resce so­bre a la­ma, no meio desta ab­je­ção mes­ma, Kiều con­serva «o puro per­fume da sua no­breza ori­gi­nal», gui­ada por uma con­vic­ção ina­ba­lá­vel:

«[…] se um pe­sado karma pesa so­bre o nosso des­ti­no, não re­cri­mi­ne­mos con­tra o céu e não o acu­se­mos de in­jus­ti­ça. A raiz do bem re­side em nós mes­mos.»

Nguyễn, Du, Kim-Vân-Kiêu (Kim-Vân-Kiều), trad. do vi­et­na­mita por Xuân Phúc [Paul Sch­nei­der] e Xuân Viêt [Nghiêm Xuân Việt], Pa­ris: Gal­li­mard/U­NES­CO, 1961.

Entre tradução e criação

Foi du­rante uma em­bai­xada na China que Nguyễn Du des­co­briu o ro­mance que lhe iria ins­pi­rar a sua obra-pri­ma. De uma nar­ra­tiva que se po­de­ria jul­gar ba­nal, soube criar um «po­ema imor­tal / Cu­jos ver­sos são tão do­ces que dei­xam, so­bre o lá­bio, / Quando os can­tá­mos, um sa­bor de mel»3Droin, Al­fred, «Ly-Than-Thong» em La Jon­que vic­to­ri­euse (O Junco vi­to­ri­oso), Pa­ris: E. Fas­quel­le, 1906.. Esta fi­li­a­ção chi­nesa iria, con­tu­do, tor­nar-se uma maçã de dis­cór­dia para o or­gu­lho na­ci­o­nal nas­cen­te. Na efer­ves­cên­cia dos anos 1920-1930, ela ar­mou a crí­tica dos na­ci­o­na­lis­tas mais in­tran­si­gen­tes, dos quais o le­trado Ngô Đức Kế se fez por­ta-voz: «O Thanh tâm tài nhân [fonte do Kim-Vân-Kiều] não é se­não um ro­mance des­pre­zado na China e eis que agora o Vi­et­name o eleva ao ní­vel de li­vro ca­nó­ni­co, de Bí­blia, é ver­da­dei­ra­mente dar-se uma grande ver­go­nha».

Na ver­da­de, se­ria como cen­su­rar La Fon­taine por ter imi­tado Esopo ou Fe­dro; se­ria es­que­cer que, para além dos em­prés­ti­mos fei­tos ao es­tran­gei­ro, se afirma aqui a in­car­na­ção so­be­rana do gé­nio na­ci­o­nal: «Os can­tos dos al­deões en­si­na­ram-me a fala da juta e da amo­reira / Pran­tos e so­lu­ços nos cam­pos evo­cam guer­ras e lu­tos», es­creve Nguyễn Du num ou­tro po­ema4Tra­ta-se do po­ema «Dia de Pura Cla­re­za» («Thanh minh ngẫu hứng»). A festa da Pura Cla­reza é aquela em que as fa­mí­lias hon­ram os an­te­pas­sa­dos in­do, pelo cam­po, fa­zer a lim­peza dos seus tú­mu­los.. Ao longo de toda a epo­peia trans­pa­rece esta sen­si­bi­li­dade fre­men­te, fre­quen­te­mente di­la­ce­ran­te, de um po­eta cujo co­ra­ção vi­bra em unís­sono com os so­fri­men­tos que fer­men­ta­vam con­fu­sa­mente nas mas­sas hu­mil­des:

«Os jun­cos pres­si­o­na­vam os seus ci­mos iguais ao so­pro rouco da bri­sa. Toda a tris­teza de um céu de ou­tono pa­re­cia re­ser­vada a um único ser [Kiều]. Ao longo das eta­pas no­tur­nas, en­quanto uma cla­ri­dade caía do fir­ma­mento ver­ti­gi­noso e os dis­tan­tes se per­diam num oce­ano de bru­ma, a lua que ela via fa­zi­a-a co­rar das suas ju­ras pe­rante os rios e os mon­tes.»

Nguyễn, Du, Kim-Vân-Kiêu (Kim-Vân-Kiều), trad. do vi­et­na­mita por Xuân Phúc [Paul Sch­nei­der] e Xuân Viêt [Nghiêm Xuân Việt], Pa­ris: Gal­li­mard/U­NES­CO, 1961.

Um espelho para o povo

A for­tuna do Kim-Vân-Kiều foi tal que aban­do­nou o do­mí­nio da li­te­ra­tura para se tor­nar um es­pe­lho no qual cada vi­et­na­mita se re­co­nhe­ce. Uma can­ção po­pu­lar eri­giu as­sim a sua lei­tura em ver­da­deira arte de vi­ver, in­dis­so­ciá­vel dos pra­ze­res do sá­bio: «Para ser ho­mem, é pre­ciso sa­ber jo­gar ao “tổ tôm”5Jogo de car­tas vi­et­na­mita para cinco jo­ga­do­res. Muito em voga na alta so­ci­e­da­de, tem a re­pu­ta­ção de exi­gir muita me­mó­ria e pers­pi­cá­cia., be­ber chá de Yun­nan e de­cla­mar o Kiều» (Làm trai biết đánh tổ tôm, uống trà Mạn hảo, ngâm nôm Thúy Kiều). A su­pers­ti­ção apo­de­rou-se mesmo de­le, fa­zendo do li­vro um orá­cu­lo: nos mo­men­tos de in­cer­te­za, não é raro que se abra ao acaso para pro­cu­rar, nos ver­sos que se apre­sen­tam, uma res­posta do des­ti­no. As­sim, do ga­bi­nete do sá­bio à mo­rada mais mo­des­ta, o po­ema soube tor­nar-se in­dis­pen­sá­vel. É ao le­trado Phạm Quỳnh que de­ve­mos a fór­mu­la, que per­ma­ne­ceu cé­le­bre, que re­sume este sen­ti­men­to:

«Que te­mos nós a te­mer, de que de­ve­mos es­tar in­qui­e­tos? O Kiều per­ma­ne­cen­do, a nossa lín­gua per­ma­ne­ce; a nossa lín­gua per­ma­ne­cen­do, o nosso país sub­sis­te.»

Thái, Bì­nh, «De quel­ques as­pects phi­lo­sophi­ques et re­li­gi­eux du chef-d’œu­vre de la lit­té­ra­ture vi­et­na­mi­en­ne: le Kim-Vân-Kiêu de Nguyễn Du» («­So­bre al­guns as­pe­tos fi­lo­só­fi­cos e re­li­gi­o­sos da obra-prima da li­te­ra­tura vi­et­na­mi­ta: o Kim-Vân-Kiều de Nguyễn Du»), Mes­sage d’Ex­trê­me-O­ri­ent, n.º 1, 1971, p. 25-38; n.º 2, 1971, p. 85-97.

Mappemonde mettant en évidence le Japon.

Na Margem dos Sonhos: Os Espectros de Ueda Akinari

Tra­du­zido do fran­cês

É na mar­gem, fre­quen­te­men­te, que se ani­nham os gé­nios mais sin­gu­la­res. Fi­lho de pai des­co­nhe­cido e de mãe de­ma­si­ado co­nhe­cida — uma cor­tesã do bairro dos pra­ze­res —, Ueda Aki­nari (1734-1809)1For­mas re­jei­ta­das:
Aki­nari Ou­e­da.
Ueda Tô­sa­ku.
Uyeda Aki­na­ri.
viu a sua mãe ape­nas uma vez, quando já era ho­mem feito e es­cri­tor cé­le­bre. Adop­tado por uma fa­mí­lia mer­cante de Osa­ka, a sua exis­tên­cia foi mar­cada por esta ver­go­nha ori­gi­nal so­bre a qual os seus ini­mi­gos não se pri­va­vam de o ata­car: «Os meus ini­mi­gos di­zem de mim: é uma cri­ança de es­ta­la­gem; pior ain­da, é al­gum re­bento de pro­xe­neta fora de ida­de! Ao que res­pon­do: […] em todo o ca­so, sou na mi­nha mon­ta­nha o único ge­ne­ral e não me co­nheço par». A isto jun­ta­va-se uma en­fer­mi­dade nos de­dos2En­fer­mi­dade que os­ten­tará as­si­nando a sua obra-prima com o pseu­dó­nimo de Senshi Ki­jin, isto é, o In­vá­lido dos De­dos De­for­ma­dos. que lhe proi­bia a ca­li­gra­fia per­fei­ta, ori­en­tan­do-o pa­ra­do­xal­men­te, ele o jo­vem or­gu­lhoso pouco in­cli­nado ao ne­gó­cio, para uma busca in­te­lec­tual e li­te­rá­ria obs­ti­na­da. Desta exis­tên­cia con­tur­ba­da, desta sen­si­bi­li­dade em carne vi­va, nas­cerá a sua obra-pri­ma, os Con­tos de Chuva e de Lua (Ugetsu mo­no­ga­tari)3For­mas re­jei­ta­das:
Con­tes des mois de pluie (Con­tos dos Me­ses de Chuva).
Con­tes de la lune va­gue après la pluie (Con­tos da Lua Vaga após a Chuva).
Con­tes de la lune et de la pluie (Con­tos da Lua e da Chuva).
Con­tes de pluies et de lune (Con­tos de Chu­vas e de Lua).
Con­tes de la lune des pluies (Con­tos da Lua das Chu­vas).
Con­tes de lune et de pluie (Con­tos de Lua e de Chuva).
Con­tes du clair de lune et de la pluie (Con­tos do Luar e da Chuva).
Ue­gutsu mo­no­ga­tari.
.

Das Fontes e dos Sonhos

Pu­bli­ca­dos em 1776, es­tes nove re­la­tos fan­tás­ti­cos mar­cam uma vi­ra­gem na li­te­ra­tura da época de Edo. Aki­na­ri, rom­pendo com os «re­la­tos do mundo flu­tu­ante», gé­nero frí­volo en­tão em vo­ga, inau­gura a ma­neira do yomihon, ou «li­vro de lei­tura», que visa um pú­blico cul­to, ao qual ofe­rece um es­paço de so­nho e de eva­são. A ori­gi­na­li­dade da sua abor­da­gem re­side numa sín­tese ma­gis­tral en­tre as tra­di­ções nar­ra­ti­vas chi­ne­sas e o pa­tri­mó­nio li­te­rá­rio ja­po­nês. Se bebe abun­dan­te­mente nas co­lec­tâ­neas de con­tos fan­tás­ti­cos das di­nas­tias Ming e Qing, como os Con­tos ao Apa­gar a Vela (Ji­an­deng xi­nhua), nunca se con­tenta com uma sim­ples tra­du­ção ou uma adap­ta­ção ser­vil. Cada re­lato é in­tei­ra­mente ja­po­ni­za­do, trans­posto para um qua­dro his­tó­rico e ge­o­grá­fico na­ci­o­nal e, so­bre­tu­do, trans­fi­gu­rado por uma me­lan­co­lia úni­ca.

Às fon­tes con­ti­nen­tais, Aki­nari mis­tura com uma arte con­su­mada as re­mi­nis­cên­cias da li­te­ra­tura clás­sica do seu país. A in­fluên­cia do te­a­tro é em toda a parte sen­sí­vel, não ape­nas nos ges­tos e nas fi­si­o­no­mias — es­pí­ri­tos vin­ga­do­res, fan­tas­mas de guer­rei­ros, apai­xo­na­das per­di­das —, mas tam­bém na pró­pria com­po­si­ção dos con­tos, que ge­rem sa­bi­a­mente o afas­ta­mento do mundo e a pro­gres­são dra­má­tica até à apa­ri­ção do so­bre­na­tu­ral. Do mesmo mo­do, a prosa ele­gante e flo­rida (gabun) é uma vi­brante ho­me­na­gem à idade de ouro da época de Hei­an, e par­ti­cu­lar­mente ao Ro­mance de Genji (Genji mo­no­ga­tari).

Uma Humanidade Fantasmagórica

O que im­pres­si­ona nos Con­tos de Chuva e de Lua é que o mundo dos es­pí­ri­tos nunca está com­ple­ta­mente se­pa­rado do dos vi­vos. Longe de se­rem sim­ples mons­tros, os fan­tas­mas de Aki­nari são do­ta­dos de uma per­so­na­li­dade com­ple­xa, fre­quen­te­mente mais rica e mais ori­gi­nal que a dos hu­ma­nos que vêm as­som­brar. As suas apa­ri­ções são mo­ti­va­das por sen­ti­men­tos po­de­ro­sa­mente hu­ma­nos: a fi­de­li­dade até para além da mor­te, o amor ul­tra­ja­do, o ciúme de­vo­ra­dor ou o ódio inex­tin­guí­vel. O es­pec­tro é fre­quen­te­mente ape­nas o pro­lon­ga­mento de uma pai­xão que não pôde sa­ci­ar-se ou apa­zi­guar-se no mundo ter­res­tre. A sua voz, vinda de além-tú­mu­lo, fa­la-nos com uma per­tur­bante mo­der­ni­dade de nós mes­mos.

As­sim de Miya­gi, a es­posa aban­do­nada que, em A Casa nos Jun­cos, es­pera sete anos o re­gresso do seu ma­rido par­tido para fa­zer for­tu­na. Morta de exaus­tão e de des­gos­to, apa­re­ce-lhe uma úl­tima noite an­tes de não ser mais que um mon­tí­culo fu­ne­rá­rio so­bre o qual se en­con­tra este po­ema di­la­ce­ran­te:

«As­sim era,
Eu sa­bi­a-o e con­tudo o meu co­ra­ção
Em­ba­la­va-se em ilu­sões:
Neste mun­do, até este dia,
Era en­tão esta a vida que vi­vi?»

Ue­da, Aki­na­ri. Con­tes de pluie et de lune (Con­tos de Chuva e de Lua) (Ugetsu mo­no­ga­tari), trad. do ja­po­nês por René Si­ef­fert. Pa­ris: Gal­li­mard, col. «Con­nais­sance de l’O­ri­ent. Sé­rie ja­po­nai­se», 1956.

O fan­tás­tico em Aki­nari não é por­tanto um sim­ples me­ca­nismo do ter­ror; é o es­pe­lho am­pli­a­dor dos tor­men­tos da al­ma. Os es­pec­tros vêm lem­brar aos vi­vos as suas fa­lhas, a con­sequên­cia mo­ral dos seus ac­tos. A vin­gança de uma es­posa traída ou a le­al­dade de um amigo que se mata para cum­prir a sua pro­messa são ou­tras tan­tas pa­rá­bo­las so­bre a força dos com­pro­mis­sos e a fa­ta­li­dade das pai­xões.

O Cinzelador de Quimeras

O es­tilo de Aki­nari é sem dú­vida o que con­fere à obra a sua pe­re­ni­da­de. Alia a no­breza da lín­gua clás­sica a um sen­tido do ritmo her­dado do , cri­ando uma mú­sica sin­gu­lar que en­fei­tiça o lei­tor. O pró­prio tí­tu­lo, Ugetsu, «chuva e lua», tra­duz esta me­lo­dia en­can­ta­dora numa ima­gem — a de um luar que se turva ao mur­mú­rio de uma chuva fi­na, ins­tau­rando um qua­dro ideal às ma­ni­fes­ta­ções do so­bre­na­tu­ral, um mundo es­pec­tral onde as fron­tei­ras en­tre o so­nho e a re­a­li­dade se es­fu­mam.

Ar­tista in­de­pen­den­te, Aki­nari le­vou quase dez anos a po­lir a sua obra-pri­ma, si­nal da im­por­tân­cia que lhe atri­buía. Uma in­de­pen­dên­cia in­te­lec­tual que se ma­ni­fes­tou igual­mente nas suas vi­ru­len­tas po­lé­mi­cas com o ou­tro grande le­trado do seu tem­po, Mo­to­ori No­ri­na­ga, na­ci­o­na­lista avant la let­tre. En­quanto este úl­timo eri­gia os mi­tos an­ces­trais do Ja­pão em «única ver­dade», Aki­nari es­car­ne­cia deste ideal afir­mando que «em qual­quer país, o es­pí­rito da na­ção é o seu fe­dor». As­sim, este fi­lho de cor­tesã sou­be, pela força única da sua ar­te, im­por-se como uma fi­gura cen­tral, um «anar­quista per­feito»4A ex­pres­são é de Al­fred Jarry a pro­pó­sito de Ubu, mas po­de­ria, por uma ana­lo­gia ou­sa­da, qua­li­fi­car o es­pí­rito de com­pleta in­de­pen­dên­cia de Aki­na­ri. que, brin­cando com as con­ven­ções, ele­vou o conto fan­tás­tico a um grau de re­fi­na­mento ini­gua­la­do. As suas sin­gu­la­ri­da­des, que pro­vi­nham de uma co­ra­gem par­ti­cu­lar numa so­ci­e­dade ja­po­nesa que eri­gia a con­for­mi­dade em vir­tude su­pre­ma, não dei­xa­ram de fas­ci­nar Mishima Yu­kio, que con­fessa em O Ja­pão mo­derno e a Ética sa­mu­rai (Ha­ga­kuré nyū­mon) ter le­vado con­sigo a obra de Aki­nari «du­rante os bom­bar­de­a­men­tos» e ad­mi­rado so­bre­tudo o seu «ana­cro­nismo de­li­be­rado». Os Con­tos de Chuva e de Lua não são ape­nas uma an­to­lo­gia do gé­ne­ro; são uma ima­gem rein­ven­tada da nar­ra­tiva à ja­po­ne­sa, onde o ma­ra­vi­lhoso e o ma­ca­bro dis­pu­tam com a po­e­sia mais de­li­ca­da, dei­xando o lei­tor sob o en­canto du­ra­douro de um so­nho es­tra­nho e mag­ní­fi­co.

Mappemonde mettant en évidence l’Iran et la France.

De Ispaão a Ménilmontant: O Itinerário de Ali Erfan

Tra­du­zido do fran­cês

O Ori­en­te, com os seus mis­té­rios e os seus tor­men­tos, sem­pre ali­men­tou o ima­gi­ná­rio oci­den­tal. Mas que sa­be­mos re­al­mente da Pér­sia con­tem­po­râ­nea, dessa terra de po­e­sia que se tor­nou o te­a­tro de uma re­vo­lu­ção que per­tur­bou a or­dem do mun­do? É uma ja­nela so­bre este Irão im­preg­nado de con­tra­di­ções que nos abre a obra de Ali Er­fan, es­cri­tor e ci­ne­asta1Cineasta: Um epi­só­dio ilus­tra as ame­a­ças di­re­tas que pe­sa­ram so­bre o ar­tista e pre­ci­pi­ta­ram o seu exí­lio. Quando o seu se­gundo filme foi pro­je­tado no Irão, o mi­nis­tro da Cul­tu­ra, pre­sente na sa­la, de­cla­rou no fim: «O único muro branco so­bre o qual ainda não se ver­teu o san­gue dos im­pu­ros, é o ecrã de ci­ne­ma. Se exe­cu­tar­mos este trai­dor e esse ecrã fi­car ver­me­lho, to­dos os ci­ne­as­tas com­pre­en­de­rão que não se pode brin­car com os in­te­res­ses do povo mu­çul­mano». nas­cido em Is­paão em 1946, e for­çado ao exí­lio em França desde 1981. A sua obra, es­crita numa lín­gua fran­cesa que fez sua, é um tes­te­mu­nho co­mo­vente e de rara fi­neza so­bre a tra­gé­dia de um povo e a con­di­ção do exi­la­do.

A Escrita como resistência

Na sua arte de son­dar as al­mas ator­men­ta­das pela ti­ra­nia e pelo ab­surdo do fa­na­tis­mo, mui­tos são os que veem em Ali Er­fan o digno her­deiro do grande Sa­degh He­dayat2Sa­degh He­dayat: Pai das le­tras ira­ni­a­nas mo­der­nas, en­ter­rado no Pè­re-La­chai­se, em Pa­ris.. A sua es­cri­ta, de uma cru­eza im­pla­cá­vel, mer­gu­lha-nos num uni­verso som­brio e opres­si­vo, quase kaf­ki­ano — o de uma so­ci­e­dade en­tre­gue ao ter­ror ins­tau­rado pela «fi­lo­so­fia alu­ci­nada dos imãs»: se­jam as mu­lhe­res per­se­gui­das de Ma femme est une sainte (A mi­nha mu­lher é uma san­ta), os ar­tis­tas opri­mi­dos de Le Der­nier Poète du monde (O Úl­timo Po­eta do mun­do) ou as fi­gu­ras mal­di­tas de Les Dam­nées du pa­ra­dis (As Da­na­das do pa­raí­so). A morte que im­pregna es­tes re­la­tos não é ape­nas a da vi­o­lên­cia, mas a do Es­tado to­ta­li­tá­rio que a en­gen­dra, esse edi­fí­cio que, para se er­guer, ne­ces­sita de um ci­mento de cor­pos. É esse mesmo ci­mento que en­con­tra­mos em Sans om­bre (Sem som­bra), um tes­te­mu­nho po­de­roso so­bre a guerra Irão-I­ra­que, esse «es­pan­toso os­sá­rio», com­pa­rá­vel às ba­ta­lhas de trin­chei­ras da Grande Guer­ra, que be­beu o san­gue de cen­te­nas de mi­lha­res de ho­mens:

«Ha­via tam­bém vo­lun­tá­rios que, com a ideia de mor­rer, es­ca­va­vam o solo para fa­zer bu­ra­cos como tú­mu­los, a que cha­ma­vam “câ­mara nup­cial para os apai­xo­na­dos de Deus”.

Mas pouco im­por­tava o sen­tido que cada um dava à sua mo­rada pas­sa­gei­ra; de­via ca­var o seu bu­raco na di­re­ção de Meca e não em fun­ção do ini­migo que es­tava em fren­te.»

Er­fan, Ali. Sans om­bre (Sem som­bra), La Tour-d’Ai­gues: Édi­ti­ons de l’Au­be, col. «Re­gards croi­sés», 2017.

Se Ali Er­fan não tem a ale­gria de crer, é esse o seu de­fei­to, ou an­tes o seu in­for­tú­nio. Mas este in­for­tú­nio de­ve-se a uma causa muito gra­ve, quero di­zer os cri­mes que viu co­me­ter em nome de uma re­li­gião cu­jos pre­cei­tos fo­ram des­na­tu­ra­dos e des­vi­a­dos do seu ver­da­deiro sig­ni­fi­ca­do, a fé tor­nan­do-se lou­cu­ra:

«Abriu sem pressa um dos es­pes­sos dos­si­ês, re­ti­rou uma fo­lha, exa­mi­nou-a, e de re­pente ex­cla­mou:

— Fe­chem esta mu­lher num saco de ju­ta, e ati­rem-lhe pe­dras até que morra como um cão. […]

E con­ti­nu­ou, re­pe­tindo o mesmo ges­to, ba­lan­çando o es­crito da­quele que ti­nha vi­a­jado para Deus, pe­gando nou­tro […]. Le­van­tou-se brus­ca­men­te, de pé so­bre a me­sa, e gri­tou como um lou­co:

— Que o pai es­tran­gule o fi­lho com as pró­prias mãos…»

Er­fan, Ali. Le Der­nier Poète du monde (O Úl­timo Po­eta do mun­do), trad. do persa pelo au­tor e Mi­chèle Cris­to­fa­ri, La Tour-d’Ai­gues: Édi­ti­ons de l’Au­be, col. «L’Aube po­che», 1990.

Do exílio e da memória

O exí­lio é uma fe­rida que nunca se fe­cha com­ple­ta­men­te. Em Adieu Mé­nil­mon­tant (A­deus Mé­nil­mon­tant), Ali Er­fan deixa por um tempo a sua Pér­sia na­tal para nos fa­lar da Fran­ça, a sua terra de aco­lhi­men­to. O ro­mance é uma ho­me­na­gem à rue de Mé­nil­mon­tant, esse bairro cos­mo­po­lita de Pa­ris onde vi­veu e exer­ceu o ofí­cio de fo­tó­gra­fo. É uma cró­nica terna e por ve­zes cruel da vida dos «per­di­dos do mundo», des­ses pá­rias da vida que, como ele, nau­fra­ga­ram neste re­fú­gio. No en­tan­to, mesmo em Fran­ça, o Irão nunca está lon­ge. Os odo­res, os sons, os ros­tos, tudo re­corda o Ori­ente per­di­do. Uma me­mó­ria que, para lu­tar con­tra o es­que­ci­men­to, se­le­ci­ona do pas­sado os tra­ços mais sa­li­en­tes.

Cada vez que em­pre­ende es­cre­ver, Ali Er­fan pro­cura o tempo da sua pri­meira ju­ven­tu­de. Sa­bo­reia o êx­tase da re­cor­da­ção, o pra­zer de re­en­con­trar as coi­sas per­di­das e es­que­ci­das na lín­gua na­tal. E, como esta me­mó­ria re­en­con­trada não conta fi­el­mente o que se pas­sou, é ela o ver­da­deiro es­cri­tor; e Ali Er­fan é o seu pri­meiro lei­tor:

«Ago­ra, co­nheço a sua lín­gua [o fran­cês]. Mas não quero fa­lar. […] A se­nhora diz: “Meu que­ri­do, diz: jas­mim”. Não que­ro. Quero pro­nun­ciar o nome da flor que es­tava na nossa ca­sa. Como se cha­ma­va? Por­que é que não me lem­bro? Aquela grande flor que cres­cia ao canto do pá­tio. Que su­bia, que gi­ra­va. Tre­pava por cima da porta da nossa ca­sa, e caía na rua. […] Como se cha­ma­va? Chei­rava bem. A se­nhora diz ain­da: “Diz, meu que­ri­do”. Eu cho­ro, eu cho­ro…»

Er­fan, Ali. Le Der­nier Poète du monde (O Úl­timo Po­eta do mun­do), trad. do persa pelo au­tor e Mi­chèle Cris­to­fa­ri, La Tour-d’Ai­gues: Édi­ti­ons de l’Au­be, col. «L’Aube po­che», 1990.

A obra de Ali Er­fan, ao mesmo tempo sin­gu­lar e uni­ver­sal, mer­gu­lha-nos num Ori­ente opres­si­vo, onde pesa a capa de chumbo de uma te­o­cra­cia ten­ta­cu­lar. Cer­ta­men­te, po­der-se-ia te­mer que o es­cri­tor do exí­lio sir­va, ape­sar de si mes­mo, ape­nas para ali­men­tar os cli­chés da « is­la­mo­fo­bia oci­den­tal » — uma tese no cen­tro de « A li­te­ra­tura de exí­lio é uma li­te­ra­tura me­nor? » de Hes­sam Nogh­reh­chi. Mas quem não visse esse lado das coi­sas per­de­ria o es­sen­ci­al; pois desde sem­pre, a cul­tura persa fez da se­pa­ra­ção e do exí­lio a fonte do seu canto mais pu­ro. Esta é a li­ção da flauta de Rûmî, cuja mú­sica su­blime nasce da sua haste ar­ran­cada ao seu jun­cal na­tal: « Es­cuta a flauta de bambu con­tar uma his­tó­ria; ela la­men­ta-se da se­pa­ra­ção: “Desde que me cor­ta­ram do jun­cal, a mi­nha queixa faz ge­mer o ho­mem e a mu­lher” ». A voz de Ali Er­fan, como a dessa flau­ta, não nasce por­tanto apesar da fis­su­ra, mas sim por ela, trans­mu­tando a bru­ta­li­dade do real numa co­mo­vente me­lo­peia.

Mappemonde mettant en évidence le Sénégal, la France, le Cameroun et la Guinée.

Coups de pi­lon de David Diop, ou o Verbo feito carne e cólera

Tra­du­zido do fran­cês

A obra de Da­vid Diop (1927-1960)1For­mas re­jei­ta­das:
Da­vid Man­dessi Di­op.
Da­vid Léon Man­dessi Di­op.
Da­vid Diop Men­des­si.
Da­vid Mam­bessi Di­op.
Não con­fun­dir com:
Da­vid Diop (1966-…), es­cri­tor e uni­ver­si­tá­rio, lau­re­ado com o pré­mio Gon­court dos li­ceus em 2018 pelo seu ro­mance Frère d’âme (Ir­mão de al­ma).
, tão breve quanto ful­gu­ran­te, per­ma­nece um dos tes­te­mu­nhos mais im­pres­si­o­nan­tes da po­e­sia da ne­gri­tude mi­li­tan­te. A sua única co­le­tâ­nea, Coups de pi­lon (Gol­pes de pi­lão) (1956), res­soa com uma força in­tac­ta, mar­te­lando as cons­ci­ên­cias e ce­le­brando a es­pe­rança in­de­fe­tí­vel de uma África de pé. Nas­cido em Bor­déus de pai se­ne­ga­lês e mãe ca­ma­ro­ne­sa, Diop vi­veu a África me­nos atra­vés da ex­pe­ri­ên­cia de uma es­ta­dia pro­lon­gada do que atra­vés do so­nho e da he­ran­ça, o que nada re­tira à po­tên­cia de um verbo que soube fa­zer-se eco dos so­fri­men­tos e das re­vol­tas de todo um con­ti­nen­te.

Uma poesia da revolta

A po­e­sia de Diop é an­tes de mais um gri­to. Um grito de re­cusa face à ini­qui­dade co­lo­ni­al, um grito de dor face à hu­mi­lha­ção do seu po­vo. Num es­tilo di­re­to, des­po­jado de todo o or­na­mento su­pér­fluo, o po­eta pro­fere as suas ver­da­des como tan­tos “gol­pes de pi­lão” des­ti­na­dos, se­gundo os seus pró­prios ter­mos, a “fu­rar os tím­pa­nos da­que­les que não o que­rem ou­vir e es­ta­lar como gol­pes de chi­cote so­bre os egoís­mos e os con­for­mis­mos da or­dem”. Cada po­ema é um re­qui­si­tó­rio que faz o ba­lanço san­grento da era tu­te­lar. As­sim, em “Les Vau­tours” (Os Abu­tres), de­nun­cia a hi­po­cri­sia da mis­são ci­vi­li­za­do­ra:

Na­quele tempo
A gol­pes de ber­ros de ci­vi­li­za­ção
A gol­pes de água benta nas fron­tes do­mes­ti­ca­das
Os abu­tres cons­truíam à som­bra das suas gar­ras
O san­grento mo­nu­mento da era tu­te­lar.

Di­op, Da­vid, Coups de pi­lon (Gol­pes de pi­lão), Pa­ris: Pré­sence afri­cai­ne, 1973.

A vi­o­lên­cia é om­ni­pre­sen­te, não ape­nas na te­má­ti­ca, mas no pró­prio ritmo da fra­se, só­bria e cor­tante como uma lâ­mi­na. O cé­le­bre e la­có­nico po­ema “Le Temps du Marty­re” (O Tempo do Mar­tí­rio) é a sua ilus­tra­ção mais pun­gen­te, ver­da­deira li­ta­nia da de­sa­pro­pri­a­ção e do crime co­lo­ni­al: “O Branco ma­tou o meu pai / Por­que o meu pai era or­gu­lhoso / O Branco vi­o­lou a mi­nha mãe / Por­que a mi­nha mãe era bela”. Es­tes ver­sos sem ar­ti­fí­ci­os, que dão ao texto a sua força per­cu­tan­te, pu­de­ram des­con­cer­tar cer­tos crí­ti­cos. Sana Ca­mara vê ne­les, por exem­plo, uma “sim­pli­ci­dade do es­tilo que roça a po­bre­za, mesmo se o po­eta tenta ca­ti­var-nos pela iro­nia dos acon­te­ci­men­tos”. No en­tan­to, é sem dú­vida nesta eco­no­mia de mei­os, nesta re­cusa do ar­ti­fí­cio, que a bru­ta­li­dade do pro­pó­sito atinge o seu pa­ro­xis­mo.

A África no coração do verbo

Se a re­volta é o mo­tor da sua es­cri­ta, a África é a sua al­ma. Ela é essa ter­ra-mãe ide­a­li­za­da, en­tre­vista atra­vés do prisma da nos­tal­gia e do so­nho. A após­trofe li­mi­nar do po­ema “A­fri­que” (Á­fri­ca) — “Áfri­ca, mi­nha África” — é uma de­cla­ra­ção de per­tença e de fi­li­a­ção. Esta Áfri­ca, con­fessa nunca a ter “conhecido”, mas o seu olhar está “cheio do teu san­gue”. Ela é al­ter­na­da­mente a mãe amante e ul­tra­ja­da, a dan­ça­rina de corpo de “pi­menta ne­gra”, e a mu­lher ama­da, Rama Kam, cuja be­leza sen­sual é uma ce­le­bra­ção de toda a ra­ça.

É nesta África so­nhada que o po­eta ex­trai a força da es­pe­ran­ça. Ao de­ses­pero que lhe ins­pira as “cos­tas que se cur­vam / E se dei­tam sob o peso da hu­mil­dade”, uma voz res­pon­de, pro­fé­ti­ca:

Fi­lho im­pe­tu­o­so, esta ár­vore ro­busta e jo­vem
Esta ár­vore ali
Es­plen­di­da­mente só no meio de flo­res bran­cas e fa­na­das
É a Áfri­ca, a tua África que re­brota
Que re­brota pa­ci­en­te­mente obs­ti­na­da­mente
E cu­jos fru­tos têm pouco a pouco
O sa­bor amargo da li­ber­da­de.

Di­op, Da­vid, Coups de pi­lon (Gol­pes de pi­lão), Pa­ris: Pré­sence afri­cai­ne, 1973.

Um humanismo militante

Re­du­zir a obra de Diop a um “ra­cismo an­tir­ra­cista2Sar­tre, Je­an-Paul, “Orphée noir” (Or­feu ne­gro), pre­fá­cio à l’Antho­lo­gie de la nou­velle poé­sie nè­gre et mal­ga­che de lan­gue fran­çaise (An­to­lo­gia da nova po­e­sia ne­gra e mal­gaxe de lín­gua fran­ce­sa) de L. S. Senghor, Pa­ris: Pres­ses uni­ver­si­tai­res de Fran­ce, 1948., para re­to­mar a fór­mula de Sar­tre, se­ria des­co­nhe­cer o seu al­cance uni­ver­sal. Se a de­nún­cia da opres­são do Ne­gro é o ponto de par­ti­da, o com­bate de Diop abraça to­dos os con­de­na­dos da ter­ra. A sua po­e­sia é um cla­mor que se eleva “de África às Amé­ri­cas” e a sua so­li­da­ri­e­dade es­ten­de-se ao “es­ti­va­dor de Suez e ao cule de Ha­nói”, ao “vi­et­na­mita dei­tado no ar­ro­zal” e ao “for­çado do Congo ir­mão do lin­chado de Atlanta”.

Esta fra­ter­ni­dade no so­fri­mento e na luta é a marca de um hu­ma­nismo pro­fun­do. O po­eta não se con­tenta em amal­di­ço­ar, ele apela à ação co­le­ti­va, à re­cusa unâ­nime en­car­nada pela in­jun­ção fi­nal de “Défi à la for­ce” (De­sa­fio à for­ça): “Le­van­ta-te e gri­ta: NÃO!”. Por­que, em de­fi­ni­ti­vo, para além da vi­o­lên­cia do ver­bo, o canto de Da­vid Diop é “gui­ado ape­nas pelo amor”, o amor de uma África li­vre no seio de uma hu­ma­ni­dade re­con­ci­li­a­da.

A obra de Da­vid Di­op, cei­fada em pleno de­sen­vol­vi­mento por uma morte trá­gica que nos pri­vou dos seus ma­nus­cri­tos vin­dou­ros, con­serva uma atu­a­li­dade ar­den­te. Léo­pold Sé­dar Senghor, seu an­tigo pro­fes­sor, es­pe­rava que com a ida­de, o po­eta fosse “humanizando-se”. Po­de­mos afir­mar que este hu­ma­nismo já es­tava no co­ra­ção da sua re­vol­ta. Coups de pi­lon (Gol­pes de pi­lão) per­ma­nece um texto es­sen­ci­al, uma obra clás­sica da po­e­sia afri­ca­na, um viá­tico para to­das as ju­ven­tu­des ávi­das de jus­tiça e de li­ber­da­de.

«É já muito para uma obra no fim de con­tas bas­tante res­tri­ta, para uma pri­meira e — in­fe­liz­mente — úl­tima obra. Mas há tex­tos que vão ao fundo das coi­sas e fa­lam ao ser in­tei­ro. Lí­ri­ca, sen­ti­men­tal, ex­pres­são de uma exi­gên­cia e de uma có­lera pes­so­al, esta po­e­sia “lan­çada grave ao as­salto das qui­me­ras” […] é bem da­que­las que, eter­na­men­te, para pla­giar Cé­sai­re, de­sa­fi­a­rão “os la­caios da or­dem” [isto é, os agen­tes de re­pres­são], da­que­las que […] sem­pre obs­ti­na­da­men­te, lem­bra­rão que “a obra do ho­mem ape­nas co­me­çou”, que a fe­li­ci­dade está sem­pre por con­quis­tar, mais bela e mais for­te.»

So­ciété afri­caine de cul­ture (dir.), Da­vid Di­op, 1927-1960 : té­moig­na­ges, étu­des (Da­vid Di­op, 1927-1960: tes­te­mu­nhos, es­tu­dos), Pa­ris: Pré­sence afri­cai­ne, 1983.